15-08-2007, 01:11 PM
Discordas e bem, Berto. Pessoal, penso que quem está a dizer que que as pessoas são irrecuperáveis, que nascem delinquentes e que nunca vão mudar está, na verdade, a DESRESPONSABILIZAR os criminosos, naturalizando e individualizando o problema. Afinal, se já nasceram assim, que culpa têm eles? Seria como nascer com uma deficiência. Se estivéssemos a defender uma ideia dessas no século XIX, provavelmente, faria todo o sentido acreditar nisso mas, entrementes, os avanços científicos que foram feitos permitiram-nos descartar essas ideias, que são totalmente incompatíveis com tudo o que já se conhece sobre o ser humano em todas as dimensões, incluindo a psíquica. Percebo que as nossas experiências pessoais às vezes podem sugerir o contrário do que estou a dizer, acreditem que compreendo e também não sou invulnerável a isso. Eu próprio cresci num zona do país onde proliferam as tensões étnicas, as clivagens sociais, a violência e, ulteriormente, o crime organizado. Na escola que frequentei, no ensino preparatório, chegou a haver casos de violação e os assaltos aconteciam a uma cadência diária, foi muito comum formarem-se aglomerados compostos exclusivamente por negros que se limitavam a aguardar a passagem dos alunos que saiam do comboio a caminho da escola para os despojar dos seus haveres com uma naturalidade desconcertante, tanto dos assaltantes como das vítimas, era um fenómeno rotineiro e banal. Quase todos os dias me envolvi em cenas de pancadaria por minha causa ou por causa de amigos meus. Isso levou a que eu me tenha tornado assumidamente racista durante um largo período da minha vida, é um impulso visceral que ainda me esforço por combater. Acho que a atitude que tem estado a dominar neste post de "comissão de linchamento" exprime o ressentimento que vem de experiências muito semelhantes às minhas que, provavelmente, já todos aqui tiveram. Mas, objectivamente, tentando subtrair-nos à esfera passional, já tivemos mais que tempo para perceber que as coisas não funcionam em termos de "maus" e "bons" nem podem ser vistas a preto e branco por mais que essa tentação seja "natural" em nós. A realidade é policromática, quando comecei a trabalhar com toxicodependentes, por exemplo, fiquei a conhecer e contribui para uma imensidão de casos de pessoas, toxicodependentes que cometiam crimes (muitos deles violentos) ligados à toxicodependência e que se reabilitaram totalmente. Com "reabilitação" entendo deixar de cometer crimes e atingir uma situação estável em termos psicológicos e económicos, tornando-se pessoas independentes. Não vou ao ponto de fixar modelos morais como "constituir família", etc. Isso não diz respeito a mais ninguém a não ser à própria pessoa. Constituirá família quem quiser e tiver vontade, os valores civilizacionais são uma coisa extremamente relativa e que muda acima de tudo com os universos de representações culturais, o que mais me preocupa, pessoalmente, é a justiça e a liberdade. Quando falei em outro post sobre "reformas sociais" estava a referir-me precisamente à "prevenção" que mais alguém falou subsequentemente, é dessa maneira que se previnem os crimes, não é com mais prisões nem com penas mais pesadas, esse é um método que está a ser usado em alguns países do mundo com os resultados que nós conhecemos, que são um fracasso clamoroso. O estado, a sociedade, tem o direito de se proteger, mas não tem direito de se vingar, algumas das sugestões que foram aqui dadas não correspondem a justiça mas sim a vingança contra quem acreditamos ameaçar o nosso modo de vida. É verdade, como também foi dito, que é exasperante quando as outras pessoas começam a interferir com as nossas liberdades pessoais, roubando-nos e agredindo-nos, mas também é verdade que uma pessoa que viva em condições de pobreza extrema tem muito menos liberdades do que as outras (não estou a dizer que todos os criminosos são pobres, estou a citar isto a título de exemplo), o mesmo argumento poderia ser usado por um criminoso para justificar os seus crimes. As liberdades dele estariam a ser violadas por isso estaria apenas a exercer o seu direito legítimo a defender-se. A melhor forma de combater o crime é combater as injustiças sociais, investir na inserção das minorias e suprimir as disparidades. Quando alguém comete um crime, a prioridade deve ser a protecção da sociedade e a reintegração, não o conceito medieval de "castigo". Já vi que estou a escrever demais, por isso vou parar antes que o Marco me dê um tiro. Só a respeito do que disse o César, os direitos humanos e os direitos dos animais são duas coisas de importância axial para que possamos viver em sociedade, hoje em dia é costume ridicularizar quem acredita nelas (especialmente em relação aos animais, a quem dedico uma grande parte da minha vida), não estou a falar de ti, até porque me parece que disseste aquilo mais ou menos a brincar, mas acho que esse é um estereótipo que está a ser reforçado apenas porque convém para se conseguir perpetuar o domínio de quadros de referência dicotómicos e as injustiças que é necessário haver para que dadas pessoas possam continuar a concentrar poderes. Os maiores responsáveis e catalisadores da criminalidade, são precisamente esses.
"E vocês sabem do que eu estou a falar"
Octávio Machado
:D
"E vocês sabem do que eu estou a falar"
Octávio Machado
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