27-06-2007, 11:14 AM
(This post was last modified: 27-06-2007, 11:16 AM by Mario Esteves.)
Österreichring, Knittelfeld, Aústria
A 3ª prova do Campeonato SRP-GPC só pode ser descrita como tendo sido uma prova de sangue, suor e lágrimas.
Mas voltemos ao início.
Tal como já foi anteriormente descrito, a TMM deslocou-se para a Aústria com a devida antecedência por forma a preparar a prova que se realizaria no circuito de Österreichring.
O Circuito situa-se perto da cidade de Knittelfeld, que mais não é do que uma cidade-distrito da Estíria (Steiermark) que é um Land da Áustria centro-oriental. A capital do Steiemark é Graz.
Ao chegarmos ao circuito deparamo-nos com um cenário que só pode ter sido pintado por uma entidade divina, tal a sua perfeição: montes verdejantes, colinas repletas de abetos e um cheiro a verde tão típico destas paisagens. Um céu azul, límpido e brilhante. Entre as colinas, e mediante um olhar atento, conseguimos descobrir, picotado na paisagem, reguados de alcatrão que aparecem e logo desaparecem entre o verde que impera. É este o famoso ring. Não fora o barulho típico das provas automobilísticas, diríamos que tinhamos encontrado o paraíso.
A pista, conhecida por ter muitas curvas rápidas bem como mudanças acentuadas na elevação, leva a que muitos considerem o Österreichring perigoso, nomeadamente a Boschkurve: uma curva para a direita de 180 graus com quase nenhuma área de escape.
O Circuito em si é magnifico para uma condução apurada. Reina a velocidade, excepção feita à famosa chicane que encima a subida no fim da recta da meta. Um erro aqui é desastroso e poderá significar mesmo o abandono. É nesta curva e contra curva que se asseguram os bons tempos por volta e se faz a diferença entre Pilotos.
Os treinos livres decorreram com normalidade. Foram ensaiados vários pacotes aerodinâmicos, testados vários acertos de Toe-in, tendo a equipa técnica da TMM conseguido um acerto que, dando alguma segurança na abordagem da famosa T1, permitia na recta maior ultrapassar os 300 Km/h. Foi decidido avançar para a corrida com a utilização de Pneus Soft-Soft, muito embora, nas mais de 300 voltas efectuadas, a utilização de pneus Hard-Soft com respectivo acerto da carga aerodinâmica na asa da frente permitisse obter os mesmos tempos por volta. Nesta prova, a TMM resolveu, por questões puramente estratégicas, efectuar a totalidade dos treinos livres sempre com 111 Litros no depósito. Os melhores tempos foram efectuados no segundo 38 baixo, e, com facilidade rodava-se no segundo 39.Com depósito a meio termo, os tempos desciam para o segundo 37.De resto, em linha com a maioria da concorrência.
No decurso destas sessões de treino e nas diversas vezes em havia concorrentes em pista, facilmente se reparou em dois factos extremamente relevantes : Em primeiro lugar, as ultrapassagens utilizando o cone de aspiração do adversário provocavam tal aumento de velocidade que as travagens passaram a ser um tiro no escuro. Em segundo lugar, e em caso de dobragem, os desvios para a parte suja da pista poderiam transformar-se num verdadeiro pesadelo pondo em perigo não só o piloto dobrado como também quem iria fazer a dobragem. E foi com esta preocupação que a Equipa chegou à Qualificação, longe de imaginar o calvário que se seguiria.
As lágrimas na Qualificação
Aberto o sinal verde, o T4 avançou para o ring com pneus de Qualificação, Litros suficientes para completar 4 voltas e um acerto de asas com muito pouca carga aerodinâmica. Estavamos confiantes, tal como acontecera nos ensaios, que chegar ao segundo 36, baixo, seria possível. Mas, mal ultrapassamos a T1, verificamos que o T4 enfermava de graves problemas eléctricos. Um monumental freeze, acompanhado duma mensagem de erro da placa gráfica, fazia temer o pior...Regresso às boxes, montagem de novo set de qualificação e lá partimos novamente. A meio desta segunda volta, primeira e de lançamento para esta segunda tentativa, o mesmo problema! Novo regresso ao pit, reunião de emergência com o Director Técnico do Team e resolvemos fazer mais uma tentativa. Faltavam 5 minutos para acabar a Qualificação...Volta de lançamento sem quaisquer problemas, abordamos a penúltima curva e, azar dos azares, um Ligier a iniciar a sua volta de Qualificação! Mas o spotter tinha dito que a pista estava livre...!?Nada havia a fazer... O T4 encaixou no Ligier e foi assim até à recta grande onde, aproveitando o cone de aspiração o T4 chegou aos 310 Km/h. A travagem para a curva Bosch foi feita a rezar, durante a curva ainda tive oportunidade para apelar a uns santos que tenho por eficazes nestas situações, e lá conseguimos sair da curva seguindo a trajectória ideal. A volta estava irremediavelmente perdida, dado o tempo desperdiçado atrás do Ligier, manifestamente mais lento. Conseguimos a 15ª posição na grelha...
Sangue e Suor na Corrida
A Partida decorreu sem problemas de maior. Estavamos no fim da grelha, e só um azar monumental é que nos impediria de sobreviver à T1. Foi com agrado que verifiquei que ninguém ficou na T1, e até pensei na felicidade do Duarte Píres ao poder fazer um plano fantástico de todos os concorrentes a abordarem os esses da T1, surgindo na lomba magnifica que o circuito nos oferece. Após a T3 estavamos em 11º fruto de menor cuidado nosso, ou maior responsabilidade de outros concorrentes, desejavelmente cuidadosos nestas primeiras curvas. As voltas seguintes decorreram de forma eficaz. O T4 comportava-se magnificamente, tendo os pneus adquirido a temperatura ideal de forma bem rápida. Lembro-me a certa altura de ver o Vitor Enes a passear pela relva (julgo que na curva Lauda) e ter pensado para com os meus botões que o Vitor nos deveria estar a rogar pragas Eu não disse? Deveria ter treinado mais! Com treino nada disto aconteceria! Eu nem queria vir!...
Ganha a confiança no carro, nos pneus e já nem me lembrando dos problemas eléctricos, resolvemos posicionar-nos devidamente na corrida. Isto é, proceder à fase de ataque! E foi assim, até ao inicio da 5º volta. Feita a recta da meta, facilitei um pouco na T1 e, precisamente a meio da T1, uma guinada a mais no volante, um toque inusitado no travão, o carro descompensa, aponta para o monte de relva, sobe parte do monte, levanta voo, dá umas voltas no ar e aterra....de cabeça para baixo!...Como é que eu saio daqui? pensei eu. Ouvia distintamente os outros concorrentes a passarem, zumbindo que nem abelhas altamente atarefadas. Alguém vai bater! e só não houve sangue por mero acaso.
Rapidamente me apercebo de vários comissários em volta do carro (eu ali de cabeça para baixo, vendo o mundo de pernas para o ar) e, de repente, tudo se recompôs. Incrivelmente o motor do carro ainda trabalhava! Instintivamente engato a primeira e arranco. Nem tempo tive para agradecer àquelas almas caridosas que me ajudaram a regressar à pista...
A recta foi feita ainda com a mente noutra galáxia. Conduzia o carro por instinto.
Acordei com o spotter nos meus ouvidos : - Suspensão Frente Esquerda com problemas, Suspensão Frente Direita com problemas, Suspensão Traseira Direita com problemas, Problemas aerodinâmicos!
Só tinha uma de duas hipóteses : ou me habituava ao carro tal qual ele estava por incrível que pareça a direcção não foi afectada ou desistia de imediato.
A guarda não se rende, morre!, pensei eu.
Dei a primeira volta a medo. Na segunda volta após este incidente já rodava no segundo 40 baixo. Estava um destroço, alagado em suor, mas estava lá! E o Vitor Enes estava a 15 segundos...
Comecei a ganhar nova confiança no carro e até me aproximava do Vitor. Estava já a cerca de 5 segundos quando uma aceleração fora de tempo na curva Lauda deitou tudo a perder. Saí de pista, fui à relva, mas felizmente não toquei em nada. Lá voltei novamente, agora com a moral abaixo de zero. Nada mais me restava do que me aguentar até ao final da corrida. Nessa altura o spotter diz-me que estavam cumpridas 15 voltas...Só faltavam mais 15...
Pelo caminho ainda vi alguns concorrentes caírem : Os 2 Tiagos, o Taplin e uns outros quantos. Estava em 9º lugar e, à minha frente, desgraça das desgraças, novamente o Berto Carvalho! Imediatamente me lembrei do Estoril, onde levei um recital de condução deste Senhor. Não, agora não vou fazer nada, vou mas é tentar chegar até ao fim. E assim foi!
A T1 era feita a uns míseros 100 Km/h. A curva Lauda era feita quase que parado. Só podia acelerar nas rectas e nas curvas para a Direita é que o carro ainda ia dando algum conforto. E foi numa dessas rectas que passei, que nem uma bala, o Piloto que ganhou o prémio do azar neste GP: Duarte Píres. Por momentos ainda pensei que o rapaz estava a tremer de emoção e a guardar a maior das cautelas face ao primeiro lugar que ocupava. Infelizmente não foi assim!
Parabéns ao vencedor, que com ares de maestro, contra tudo e todos, fez deste GP, que teve 4 lideres, um dos mais memoráveis até à data.
Segue-se Dijon, palco do maior duelo de todos os tempos entre o René Arnoux e o Gilles Villeneuve.
Até lá...
A 3ª prova do Campeonato SRP-GPC só pode ser descrita como tendo sido uma prova de sangue, suor e lágrimas.
Mas voltemos ao início.
Tal como já foi anteriormente descrito, a TMM deslocou-se para a Aústria com a devida antecedência por forma a preparar a prova que se realizaria no circuito de Österreichring.
O Circuito situa-se perto da cidade de Knittelfeld, que mais não é do que uma cidade-distrito da Estíria (Steiermark) que é um Land da Áustria centro-oriental. A capital do Steiemark é Graz.
Ao chegarmos ao circuito deparamo-nos com um cenário que só pode ter sido pintado por uma entidade divina, tal a sua perfeição: montes verdejantes, colinas repletas de abetos e um cheiro a verde tão típico destas paisagens. Um céu azul, límpido e brilhante. Entre as colinas, e mediante um olhar atento, conseguimos descobrir, picotado na paisagem, reguados de alcatrão que aparecem e logo desaparecem entre o verde que impera. É este o famoso ring. Não fora o barulho típico das provas automobilísticas, diríamos que tinhamos encontrado o paraíso.
A pista, conhecida por ter muitas curvas rápidas bem como mudanças acentuadas na elevação, leva a que muitos considerem o Österreichring perigoso, nomeadamente a Boschkurve: uma curva para a direita de 180 graus com quase nenhuma área de escape.
O Circuito em si é magnifico para uma condução apurada. Reina a velocidade, excepção feita à famosa chicane que encima a subida no fim da recta da meta. Um erro aqui é desastroso e poderá significar mesmo o abandono. É nesta curva e contra curva que se asseguram os bons tempos por volta e se faz a diferença entre Pilotos.
Os treinos livres decorreram com normalidade. Foram ensaiados vários pacotes aerodinâmicos, testados vários acertos de Toe-in, tendo a equipa técnica da TMM conseguido um acerto que, dando alguma segurança na abordagem da famosa T1, permitia na recta maior ultrapassar os 300 Km/h. Foi decidido avançar para a corrida com a utilização de Pneus Soft-Soft, muito embora, nas mais de 300 voltas efectuadas, a utilização de pneus Hard-Soft com respectivo acerto da carga aerodinâmica na asa da frente permitisse obter os mesmos tempos por volta. Nesta prova, a TMM resolveu, por questões puramente estratégicas, efectuar a totalidade dos treinos livres sempre com 111 Litros no depósito. Os melhores tempos foram efectuados no segundo 38 baixo, e, com facilidade rodava-se no segundo 39.Com depósito a meio termo, os tempos desciam para o segundo 37.De resto, em linha com a maioria da concorrência.
No decurso destas sessões de treino e nas diversas vezes em havia concorrentes em pista, facilmente se reparou em dois factos extremamente relevantes : Em primeiro lugar, as ultrapassagens utilizando o cone de aspiração do adversário provocavam tal aumento de velocidade que as travagens passaram a ser um tiro no escuro. Em segundo lugar, e em caso de dobragem, os desvios para a parte suja da pista poderiam transformar-se num verdadeiro pesadelo pondo em perigo não só o piloto dobrado como também quem iria fazer a dobragem. E foi com esta preocupação que a Equipa chegou à Qualificação, longe de imaginar o calvário que se seguiria.
As lágrimas na Qualificação
Aberto o sinal verde, o T4 avançou para o ring com pneus de Qualificação, Litros suficientes para completar 4 voltas e um acerto de asas com muito pouca carga aerodinâmica. Estavamos confiantes, tal como acontecera nos ensaios, que chegar ao segundo 36, baixo, seria possível. Mas, mal ultrapassamos a T1, verificamos que o T4 enfermava de graves problemas eléctricos. Um monumental freeze, acompanhado duma mensagem de erro da placa gráfica, fazia temer o pior...Regresso às boxes, montagem de novo set de qualificação e lá partimos novamente. A meio desta segunda volta, primeira e de lançamento para esta segunda tentativa, o mesmo problema! Novo regresso ao pit, reunião de emergência com o Director Técnico do Team e resolvemos fazer mais uma tentativa. Faltavam 5 minutos para acabar a Qualificação...Volta de lançamento sem quaisquer problemas, abordamos a penúltima curva e, azar dos azares, um Ligier a iniciar a sua volta de Qualificação! Mas o spotter tinha dito que a pista estava livre...!?Nada havia a fazer... O T4 encaixou no Ligier e foi assim até à recta grande onde, aproveitando o cone de aspiração o T4 chegou aos 310 Km/h. A travagem para a curva Bosch foi feita a rezar, durante a curva ainda tive oportunidade para apelar a uns santos que tenho por eficazes nestas situações, e lá conseguimos sair da curva seguindo a trajectória ideal. A volta estava irremediavelmente perdida, dado o tempo desperdiçado atrás do Ligier, manifestamente mais lento. Conseguimos a 15ª posição na grelha...
Sangue e Suor na Corrida
A Partida decorreu sem problemas de maior. Estavamos no fim da grelha, e só um azar monumental é que nos impediria de sobreviver à T1. Foi com agrado que verifiquei que ninguém ficou na T1, e até pensei na felicidade do Duarte Píres ao poder fazer um plano fantástico de todos os concorrentes a abordarem os esses da T1, surgindo na lomba magnifica que o circuito nos oferece. Após a T3 estavamos em 11º fruto de menor cuidado nosso, ou maior responsabilidade de outros concorrentes, desejavelmente cuidadosos nestas primeiras curvas. As voltas seguintes decorreram de forma eficaz. O T4 comportava-se magnificamente, tendo os pneus adquirido a temperatura ideal de forma bem rápida. Lembro-me a certa altura de ver o Vitor Enes a passear pela relva (julgo que na curva Lauda) e ter pensado para com os meus botões que o Vitor nos deveria estar a rogar pragas Eu não disse? Deveria ter treinado mais! Com treino nada disto aconteceria! Eu nem queria vir!...
Ganha a confiança no carro, nos pneus e já nem me lembrando dos problemas eléctricos, resolvemos posicionar-nos devidamente na corrida. Isto é, proceder à fase de ataque! E foi assim, até ao inicio da 5º volta. Feita a recta da meta, facilitei um pouco na T1 e, precisamente a meio da T1, uma guinada a mais no volante, um toque inusitado no travão, o carro descompensa, aponta para o monte de relva, sobe parte do monte, levanta voo, dá umas voltas no ar e aterra....de cabeça para baixo!...Como é que eu saio daqui? pensei eu. Ouvia distintamente os outros concorrentes a passarem, zumbindo que nem abelhas altamente atarefadas. Alguém vai bater! e só não houve sangue por mero acaso.
Rapidamente me apercebo de vários comissários em volta do carro (eu ali de cabeça para baixo, vendo o mundo de pernas para o ar) e, de repente, tudo se recompôs. Incrivelmente o motor do carro ainda trabalhava! Instintivamente engato a primeira e arranco. Nem tempo tive para agradecer àquelas almas caridosas que me ajudaram a regressar à pista...
A recta foi feita ainda com a mente noutra galáxia. Conduzia o carro por instinto.
Acordei com o spotter nos meus ouvidos : - Suspensão Frente Esquerda com problemas, Suspensão Frente Direita com problemas, Suspensão Traseira Direita com problemas, Problemas aerodinâmicos!
Só tinha uma de duas hipóteses : ou me habituava ao carro tal qual ele estava por incrível que pareça a direcção não foi afectada ou desistia de imediato.
A guarda não se rende, morre!, pensei eu.
Dei a primeira volta a medo. Na segunda volta após este incidente já rodava no segundo 40 baixo. Estava um destroço, alagado em suor, mas estava lá! E o Vitor Enes estava a 15 segundos...
Comecei a ganhar nova confiança no carro e até me aproximava do Vitor. Estava já a cerca de 5 segundos quando uma aceleração fora de tempo na curva Lauda deitou tudo a perder. Saí de pista, fui à relva, mas felizmente não toquei em nada. Lá voltei novamente, agora com a moral abaixo de zero. Nada mais me restava do que me aguentar até ao final da corrida. Nessa altura o spotter diz-me que estavam cumpridas 15 voltas...Só faltavam mais 15...
Pelo caminho ainda vi alguns concorrentes caírem : Os 2 Tiagos, o Taplin e uns outros quantos. Estava em 9º lugar e, à minha frente, desgraça das desgraças, novamente o Berto Carvalho! Imediatamente me lembrei do Estoril, onde levei um recital de condução deste Senhor. Não, agora não vou fazer nada, vou mas é tentar chegar até ao fim. E assim foi!
A T1 era feita a uns míseros 100 Km/h. A curva Lauda era feita quase que parado. Só podia acelerar nas rectas e nas curvas para a Direita é que o carro ainda ia dando algum conforto. E foi numa dessas rectas que passei, que nem uma bala, o Piloto que ganhou o prémio do azar neste GP: Duarte Píres. Por momentos ainda pensei que o rapaz estava a tremer de emoção e a guardar a maior das cautelas face ao primeiro lugar que ocupava. Infelizmente não foi assim!
Parabéns ao vencedor, que com ares de maestro, contra tudo e todos, fez deste GP, que teve 4 lideres, um dos mais memoráveis até à data.
Segue-se Dijon, palco do maior duelo de todos os tempos entre o René Arnoux e o Gilles Villeneuve.
Até lá...

