03-06-2007, 06:06 PM
Saudações, amigos.
Edit: Tinha pensado não escrever nada demasiado prolixo, até porque estou num computador emprestado e sem muito tempo. O Vítor já se deve estar a rir só de olhar para a extensão do post, peço desculpa, não quero azucrinar ninguém e sei que este fórum é sobre corridas de automóveis e não sobre estes temas, mas como temos um tópico Geral, acho que não faz mal falar sobre isto aqui. lol Agora só terça-feira é que volto a tocar num computador, por isso não vão ter de me aturar. :D
A respeito do comentário do Carlos Rocha (ao qual dou prioridade apenas por ser um bom ponto de partida para dissipar algumas confusões que podem ter sido feitas), acho importante observar que, na minha opinião e, penso eu, na opinião de todas as pessoas que vierem a ler este post, uma pessoa, um ser humano, é um sistema multidimensional, multifacetado, dinâmico e complexo que não se reduz a um modelo, arquétipo, ou corrente de pensamento estabelecida (o comunismo está longe de ser um modo de pensamento estático, pelo contrário, está em permanente evolução, mas ainda que o fosse teria o mesmo significado dentro deste contexto). É com isso em mente que penso que ter a pretensão de saber tudo sobre as ideias, valores, convicções ou personalidade de uma pessoa só por se conhecer as suas orientações em termos PARTIDÁRIOS é uma atitude um tanto procaz e estereotipada. Não me sinto na obrigação de dar satisfações ao Carlos Rocha ou a quem quer que seja sobre as minhas tendências partidárias, que já esclareci aqui para quem leu os posts anteriores, especialmente quando essas convicções são usadas, deturpadamente, não para contrapor as minhas ideias, mas para invalidá-las, ou melhor, falsificá-las à partida sem que sejam submetidas a uma reflexão construtiva sobre o seu significado. Essas ideias conservam o seu valor independentemente da pessoa que as exprime. Mesmo assim, vou relatar algumas das minhas experiências com o PCP. Como disse antes, sou eleitor desse partido (e também do bloco de esquerda em alguns momentos eleitorais), em adolescente, com 16 anos, penso eu, dirigi-me, juntamente com um amigo, a uma sede do partido comunista para consumar a nossa inscrição na JCP. A sede estava fechada nesse dia e essa foi a única ocasião em que estive sequer perto de entrar dentro de uma sede do PCP. Alguma vez viram um adolescente que não seja volátil? Eu era. Já estive, uma vez, num centro de trabalho desse partido por acasião de uma festa que foi lá organizada (algo temático, mas não me recordo exactamente do tema) e conservo ainda intacta a recordação das baratas que encontrei no meio do esparguete que, não obstante, estava muito bom, ou talvez mesmo por causa disso. Fora isto, todas as vezes que trabalhei em conjunto com militantes do PCP foi fora da esfera partidária e em função de interesses comuns. Não sou filiado no partido e não estou comprometido sob nenhuma forma com as ideias que esse partido defende, embora, obviamente, me identifique profundamente com alguns dos seus princípios fundamentais (não me identificando com outros). Sobre o arquivo com partes de discursos já feitos e muito bem organizado, o Carlos Rocha, uma vez que, para saber isto, é presumível que conheça o partido do lado de dentro (conhecimento que eu não tenho), talvez me permita acompanhá-lo a uma sede do partido para analisarmos esse acervo de arquivos que ele fará o obséquio de me mostrar. Perdoem-me o sardonismo. Os comunistas dizem sempre a mesma coisa (ao contrário do Carlos Rocha que, até agora, tem dito sempre coisas diferentes sobre os comunistas e nos tem fornecido múltiplas perspectivas), concordo e discordo com essa afirmação. Os comunistas dizem coisas muito diferentes e não estão todos de acordo uns com os outros mas, no fundamental, o partido diz sempre o mesmo porque as injustiças são sempre as mesmas. Seria confrangedor se qualquer coisa diferente disso acontecesse se, em situações iguais, o partido defendesse coisas distintas e antagónicas (tanto podemos estar a falar sobre o partido comunista como de qualquer outro partido). Não penso que a coerência seja um valor absoluto (sobretudo quando se transforma em teimosia exacerbada), acho que a melhor forma de coerência é aplicar às nossas ideias os mesmos critérios que aplicamos para analisar as dos outros e, quando se justifica, mudar de opinião. É com base nesse mesmo princípio que considero o PCP um partido coerente, embora, claro, repleto de defeitos que também podemos discutir aqui se houver vontade de alguém para isso. Lábia, foi algo que decididamente não usei no post em que respondi ao Vitor Enes (que, no seu primeiro post, apresentou argumentos construtivos, provas e relatos sobre as suas experiências na Venezuela em vez de preconceitos, atoardas, ou provocações. Acredito que temos muito a aprender um com o outro sobre o que se passa no mundo, já que, tal como ele próprio referiu no último post que escreveu, mantemos a mesma atitude em relação às coisas, mesmo não estando algumas vezes de acordo), já que a argumentação que usei foi sincera e isenta, reproduziu apenas as minhas ideias e não as ideias de um partido ou organização. Os dados que apresentei no meu post, a serem irrealistas (e admito que possam sê-lo, já que o Vitor Enes tem dados diferentes dos meus e experiências diferentes da minhas), não são embustes da minha autoria, foram recolhidas de um conjunto diversificado de fontes que considero, até agora, dignas de crédito. Felizmente, ainda me restam muitas outras coisas para além das minhas afinidades partidárias. Há uma confusão que é importante não fazer, dizer que se é comunista tem o mesmo valor que dizer-se que se é de esquerda ou de direita, são termos ou conceitos que servem para identificar ORIENTAÇÕES políticas, em termos das ideias de cada um, não dão uma definição cabal para essas ideias, que variam com cada pessoa. Os comunistas não são todos iguais nem defendem todos as mesmas coisas, pensar tal coisa, seria de uma alienação tremenda em relação às realidades mais elementares sobre as relações humanas. Uma pessoa não se reduz a um estereótipo.
A respeito do post do Vítor Enes.
Foi com satisfação que li a tua resposta, Vitor. Tal com já disse anteriormente neste post, acompanho-te na ideia que partilhamos a mesma atitude em relação a estes problemas. Em primeiro lugar, confirmo que apreendeste correctamente o sentido do meu nick e, em segundo, podes considerar-te convidado, juntamente com a tua família, a visitar-me em Sintra, o lugar onde moro, se alguma vez decidirem vir passear para estes lados. Penso que a nossa troca de ideias seria ainda mais estimulante sem estes hiatos impostos pela Internet, onde há uma grande impressoalidade. Tu, provavelmente, pelo teu percurso de vida, terás até muito mais razões de queixa em relação ao comunismo (Chavez não é comunista, mas o PCP e outros partidos comunistas, como o de Cuba, mantêm relações muito estreitas com o governo Venezuelano e apoiam-no abertamente) do que qualquer outra pessoa aqui, no entanto, em vez de confrontares as minhas ideias com agressividade, escárnio ou ironia, interpelaste-as através de argumentos e testemunhos que tinham a ver com essas ideias, independentemente da minha pessoa ou de suposições sobre o resto das minhas convicções que não são importantes nem relevantes para o tema, que tem existência própria. É pena que muitas pessoas não vejam as coisas dessa maneira, mas é com regozijo que vejo que debatemos as matérias dentro da mesma dimensão. Neste teu último post falaste sobre as perseguições que sofreste na Venezuela por ser estrangeiro (branco como a cal... lol) e por teres assinado uma petição para referendar a continuidade do governo em funções, esse referendo revogatório foi mesmo feito e com os resultados que conhecemos, que não interessa analisar agora. Sobre a primeira parte, eu próprio previ que, as políticas do governo contra a exploração da Venezuela pelos interesses económicos estrangeiros (é esta a interpretação que faço sobre as políticas do governo, eventualmente terás uma diferente), teria esse tipo de efeitos colaterais (colaterais, até já pareço um Ianque a falar... lol). Penso que é algo que o governo devia diligenciado, expressamente, para evitar, sabendo separar o resultado das acções das multinacionais do resto dos emigrantes na Venezuela que, o que têm, foi ganho à custa do trabalho e não da exploração. Infelizmente este tipo de generalização é mais ou menos universal em todos os processos de transformação social, sem que isso desculpe nem tão pouco mais ou menos o governo da Venezuela por não ter sabido (ou tido vontade de) adequar o discurso depurando o racismo e a xenofobia. Mesmo cá em Portugal, depois do 25 de Abril, foram cometidas graves injustiças sobre muitas pessoas, qualquer um que tivesse o carro pintado da cor errada arriscava-se a ser acusado pelos transeuntes de ser fascista. O que não impede que o 25 de Abril tenha sido uma coisa boa para Portugal, podia ter sido muito melhor, é verdade. Mesmo assim, o discurso do governo, isoladamente, penso eu, não é suficiente para tornar alguém racista, essas tensões já deviam existir intersticialmente à sociedade e encontraram reforço nas novas políticas governamentais. Sobre a segunda parte, recebo com muita preocupação a descrição que fizeste sobre essa situação e gostava de saber mais sobre isso. Quando no outro dia disse que a tua palavra não basta, noção com a qual concordaste e incentivaste no teu post seguinte, isso não corresponde, como é óbvio, a chamar-te mentiroso (coisa que tenho a certeza que não és), corresponde apenas a reconhecer, com humildade, que tanto tu como eu podemos estar enganados. Algumas pessoas que conheço (alguns que se dizem comunistas) achariam justificadas essas perseguições eu, pessoalmente, acho-as IGNOMINIOSAS. Se alguma vez ouvir alguém defender esse tipo de atitudes, terei o cuidado de fazer notar que as supostas listas de grevistas das quais tanto se fala em Portugal correspondem exactamente ao mesmo tipo de processo de intimidação política e são fortemente criticadas por essas mesmas pessoas. Posto isto, tenho muitas reservas sobre o que disseste, acredito, claro, que seja essa a percepção que tens sobre o que aconteceu, as interrogações que coloco são sobre se essa percepção corresponderá à realidade. E acredita que não pretendo sobrepor as informações que tenho, obtidas a distância, às coisas que viveste na Venezuela, o meu objectivo é apurar a verdade juntamente contigo, não branqueá-la. Quanto tiveres tempo, fala-me sobre as provas que existem da obtenção e uso dessas listas pelo governo para prejudicar quem as assinou (é claro que seria ridículo esperar que me apresentasses fisicamente as provas, peço apenas que resumas o que é dito por quem defende essa versão e se sentiu lesado pessoalmente). Lembro-me de uma ocasião, antes das eleições na Venezuela, em que a RCTV noticiou que as sondagens feitas por uma Universidade espanhola que davam a vitória a Chavez por uma margem colossal nas eleições eram falsas. Supostamente, o nome da pessoa responsável por essas sondagens tinha sido introduzido no motor de busca do site da Universidade (por jornalistas dessa estação) sem que tivesse sido obtido um resultado. A Universidade emitiu pouco depois um desmentido onde mostrava o nome dessa pessoa constante nesse mesmo site que, só não tinha produzido resultados válidos à busca feita pela RCTV, porque o nome tinha sido inserido com as letras trocadas (isto faz lembrar a excelência do jornalismo da CBS e o Mário Crespo no 60 minutes). Falei neste exemplo para relembrar a conjuntura de desinformação que se pode ter estendido até essa matéria. Houve algo que me esqueci de referir no outro post, sobre o José Vicente Rangel, desde a eleição em 1999 só mudou de cargo duas vezes (ocupando, no total, três cargos no governo), penso que de dois em dois meses foi uma expressão um pouco exagerada que usaste, mesmo sendo alegórica (ou então temos informações diferentes, o que é bem possível). Começou como ministro dos negócios estrangeiros, em 2001 passou para ministro da defesa (sendo civil, o que representou uma fractura com os costumes que caracterizam os sistemas políticos dos países dessa região do mundo) e, em 2002, assumiu o cargo de vice-presidente, tendo sido substituído este ano por Jorge Rodríguez, abandonando o governo. Esta rotatividade, que nem foi assim tanta, não é anormal nem sinal de instabilidade ou corrupção em países de tradições democráticas. Há exemplos muito semelhantes em nações de toda a Europa com reputação de serem democráticas (o que não quer dizer que sejam e, nesse ponto, não podíamos estar mais de acordo). Isto, claro, não retira valor nenhum à tua ideia sobre as funções que ocupa como director de informação de um canal e que merece, por criar questões sobre imparcialidade, ser investigada. Finalizo o post com uma última observação, esta de cariz pessoal, por um lado foi muito bom que tenhas voltado para Portugal, numa altura periclitante como esta, com a vandalização de importantes conquistas sociais, a tua postura construtiva em relação à sociedade é muito útil especialmente agora. E agradeço novamente a tua disponibilidade para falar, de forma equilibrada, de um tema que nem sequer tem muito a ver com o fórum. Quando voltar temos de combinar umas corridas no rFactor, ando a precisar de actividades lúdicas. Vais entrar na Funrace de dia 10? :D
Edit: Tinha pensado não escrever nada demasiado prolixo, até porque estou num computador emprestado e sem muito tempo. O Vítor já se deve estar a rir só de olhar para a extensão do post, peço desculpa, não quero azucrinar ninguém e sei que este fórum é sobre corridas de automóveis e não sobre estes temas, mas como temos um tópico Geral, acho que não faz mal falar sobre isto aqui. lol Agora só terça-feira é que volto a tocar num computador, por isso não vão ter de me aturar. :D
A respeito do comentário do Carlos Rocha (ao qual dou prioridade apenas por ser um bom ponto de partida para dissipar algumas confusões que podem ter sido feitas), acho importante observar que, na minha opinião e, penso eu, na opinião de todas as pessoas que vierem a ler este post, uma pessoa, um ser humano, é um sistema multidimensional, multifacetado, dinâmico e complexo que não se reduz a um modelo, arquétipo, ou corrente de pensamento estabelecida (o comunismo está longe de ser um modo de pensamento estático, pelo contrário, está em permanente evolução, mas ainda que o fosse teria o mesmo significado dentro deste contexto). É com isso em mente que penso que ter a pretensão de saber tudo sobre as ideias, valores, convicções ou personalidade de uma pessoa só por se conhecer as suas orientações em termos PARTIDÁRIOS é uma atitude um tanto procaz e estereotipada. Não me sinto na obrigação de dar satisfações ao Carlos Rocha ou a quem quer que seja sobre as minhas tendências partidárias, que já esclareci aqui para quem leu os posts anteriores, especialmente quando essas convicções são usadas, deturpadamente, não para contrapor as minhas ideias, mas para invalidá-las, ou melhor, falsificá-las à partida sem que sejam submetidas a uma reflexão construtiva sobre o seu significado. Essas ideias conservam o seu valor independentemente da pessoa que as exprime. Mesmo assim, vou relatar algumas das minhas experiências com o PCP. Como disse antes, sou eleitor desse partido (e também do bloco de esquerda em alguns momentos eleitorais), em adolescente, com 16 anos, penso eu, dirigi-me, juntamente com um amigo, a uma sede do partido comunista para consumar a nossa inscrição na JCP. A sede estava fechada nesse dia e essa foi a única ocasião em que estive sequer perto de entrar dentro de uma sede do PCP. Alguma vez viram um adolescente que não seja volátil? Eu era. Já estive, uma vez, num centro de trabalho desse partido por acasião de uma festa que foi lá organizada (algo temático, mas não me recordo exactamente do tema) e conservo ainda intacta a recordação das baratas que encontrei no meio do esparguete que, não obstante, estava muito bom, ou talvez mesmo por causa disso. Fora isto, todas as vezes que trabalhei em conjunto com militantes do PCP foi fora da esfera partidária e em função de interesses comuns. Não sou filiado no partido e não estou comprometido sob nenhuma forma com as ideias que esse partido defende, embora, obviamente, me identifique profundamente com alguns dos seus princípios fundamentais (não me identificando com outros). Sobre o arquivo com partes de discursos já feitos e muito bem organizado, o Carlos Rocha, uma vez que, para saber isto, é presumível que conheça o partido do lado de dentro (conhecimento que eu não tenho), talvez me permita acompanhá-lo a uma sede do partido para analisarmos esse acervo de arquivos que ele fará o obséquio de me mostrar. Perdoem-me o sardonismo. Os comunistas dizem sempre a mesma coisa (ao contrário do Carlos Rocha que, até agora, tem dito sempre coisas diferentes sobre os comunistas e nos tem fornecido múltiplas perspectivas), concordo e discordo com essa afirmação. Os comunistas dizem coisas muito diferentes e não estão todos de acordo uns com os outros mas, no fundamental, o partido diz sempre o mesmo porque as injustiças são sempre as mesmas. Seria confrangedor se qualquer coisa diferente disso acontecesse se, em situações iguais, o partido defendesse coisas distintas e antagónicas (tanto podemos estar a falar sobre o partido comunista como de qualquer outro partido). Não penso que a coerência seja um valor absoluto (sobretudo quando se transforma em teimosia exacerbada), acho que a melhor forma de coerência é aplicar às nossas ideias os mesmos critérios que aplicamos para analisar as dos outros e, quando se justifica, mudar de opinião. É com base nesse mesmo princípio que considero o PCP um partido coerente, embora, claro, repleto de defeitos que também podemos discutir aqui se houver vontade de alguém para isso. Lábia, foi algo que decididamente não usei no post em que respondi ao Vitor Enes (que, no seu primeiro post, apresentou argumentos construtivos, provas e relatos sobre as suas experiências na Venezuela em vez de preconceitos, atoardas, ou provocações. Acredito que temos muito a aprender um com o outro sobre o que se passa no mundo, já que, tal como ele próprio referiu no último post que escreveu, mantemos a mesma atitude em relação às coisas, mesmo não estando algumas vezes de acordo), já que a argumentação que usei foi sincera e isenta, reproduziu apenas as minhas ideias e não as ideias de um partido ou organização. Os dados que apresentei no meu post, a serem irrealistas (e admito que possam sê-lo, já que o Vitor Enes tem dados diferentes dos meus e experiências diferentes da minhas), não são embustes da minha autoria, foram recolhidas de um conjunto diversificado de fontes que considero, até agora, dignas de crédito. Felizmente, ainda me restam muitas outras coisas para além das minhas afinidades partidárias. Há uma confusão que é importante não fazer, dizer que se é comunista tem o mesmo valor que dizer-se que se é de esquerda ou de direita, são termos ou conceitos que servem para identificar ORIENTAÇÕES políticas, em termos das ideias de cada um, não dão uma definição cabal para essas ideias, que variam com cada pessoa. Os comunistas não são todos iguais nem defendem todos as mesmas coisas, pensar tal coisa, seria de uma alienação tremenda em relação às realidades mais elementares sobre as relações humanas. Uma pessoa não se reduz a um estereótipo.
A respeito do post do Vítor Enes.
Foi com satisfação que li a tua resposta, Vitor. Tal com já disse anteriormente neste post, acompanho-te na ideia que partilhamos a mesma atitude em relação a estes problemas. Em primeiro lugar, confirmo que apreendeste correctamente o sentido do meu nick e, em segundo, podes considerar-te convidado, juntamente com a tua família, a visitar-me em Sintra, o lugar onde moro, se alguma vez decidirem vir passear para estes lados. Penso que a nossa troca de ideias seria ainda mais estimulante sem estes hiatos impostos pela Internet, onde há uma grande impressoalidade. Tu, provavelmente, pelo teu percurso de vida, terás até muito mais razões de queixa em relação ao comunismo (Chavez não é comunista, mas o PCP e outros partidos comunistas, como o de Cuba, mantêm relações muito estreitas com o governo Venezuelano e apoiam-no abertamente) do que qualquer outra pessoa aqui, no entanto, em vez de confrontares as minhas ideias com agressividade, escárnio ou ironia, interpelaste-as através de argumentos e testemunhos que tinham a ver com essas ideias, independentemente da minha pessoa ou de suposições sobre o resto das minhas convicções que não são importantes nem relevantes para o tema, que tem existência própria. É pena que muitas pessoas não vejam as coisas dessa maneira, mas é com regozijo que vejo que debatemos as matérias dentro da mesma dimensão. Neste teu último post falaste sobre as perseguições que sofreste na Venezuela por ser estrangeiro (branco como a cal... lol) e por teres assinado uma petição para referendar a continuidade do governo em funções, esse referendo revogatório foi mesmo feito e com os resultados que conhecemos, que não interessa analisar agora. Sobre a primeira parte, eu próprio previ que, as políticas do governo contra a exploração da Venezuela pelos interesses económicos estrangeiros (é esta a interpretação que faço sobre as políticas do governo, eventualmente terás uma diferente), teria esse tipo de efeitos colaterais (colaterais, até já pareço um Ianque a falar... lol). Penso que é algo que o governo devia diligenciado, expressamente, para evitar, sabendo separar o resultado das acções das multinacionais do resto dos emigrantes na Venezuela que, o que têm, foi ganho à custa do trabalho e não da exploração. Infelizmente este tipo de generalização é mais ou menos universal em todos os processos de transformação social, sem que isso desculpe nem tão pouco mais ou menos o governo da Venezuela por não ter sabido (ou tido vontade de) adequar o discurso depurando o racismo e a xenofobia. Mesmo cá em Portugal, depois do 25 de Abril, foram cometidas graves injustiças sobre muitas pessoas, qualquer um que tivesse o carro pintado da cor errada arriscava-se a ser acusado pelos transeuntes de ser fascista. O que não impede que o 25 de Abril tenha sido uma coisa boa para Portugal, podia ter sido muito melhor, é verdade. Mesmo assim, o discurso do governo, isoladamente, penso eu, não é suficiente para tornar alguém racista, essas tensões já deviam existir intersticialmente à sociedade e encontraram reforço nas novas políticas governamentais. Sobre a segunda parte, recebo com muita preocupação a descrição que fizeste sobre essa situação e gostava de saber mais sobre isso. Quando no outro dia disse que a tua palavra não basta, noção com a qual concordaste e incentivaste no teu post seguinte, isso não corresponde, como é óbvio, a chamar-te mentiroso (coisa que tenho a certeza que não és), corresponde apenas a reconhecer, com humildade, que tanto tu como eu podemos estar enganados. Algumas pessoas que conheço (alguns que se dizem comunistas) achariam justificadas essas perseguições eu, pessoalmente, acho-as IGNOMINIOSAS. Se alguma vez ouvir alguém defender esse tipo de atitudes, terei o cuidado de fazer notar que as supostas listas de grevistas das quais tanto se fala em Portugal correspondem exactamente ao mesmo tipo de processo de intimidação política e são fortemente criticadas por essas mesmas pessoas. Posto isto, tenho muitas reservas sobre o que disseste, acredito, claro, que seja essa a percepção que tens sobre o que aconteceu, as interrogações que coloco são sobre se essa percepção corresponderá à realidade. E acredita que não pretendo sobrepor as informações que tenho, obtidas a distância, às coisas que viveste na Venezuela, o meu objectivo é apurar a verdade juntamente contigo, não branqueá-la. Quanto tiveres tempo, fala-me sobre as provas que existem da obtenção e uso dessas listas pelo governo para prejudicar quem as assinou (é claro que seria ridículo esperar que me apresentasses fisicamente as provas, peço apenas que resumas o que é dito por quem defende essa versão e se sentiu lesado pessoalmente). Lembro-me de uma ocasião, antes das eleições na Venezuela, em que a RCTV noticiou que as sondagens feitas por uma Universidade espanhola que davam a vitória a Chavez por uma margem colossal nas eleições eram falsas. Supostamente, o nome da pessoa responsável por essas sondagens tinha sido introduzido no motor de busca do site da Universidade (por jornalistas dessa estação) sem que tivesse sido obtido um resultado. A Universidade emitiu pouco depois um desmentido onde mostrava o nome dessa pessoa constante nesse mesmo site que, só não tinha produzido resultados válidos à busca feita pela RCTV, porque o nome tinha sido inserido com as letras trocadas (isto faz lembrar a excelência do jornalismo da CBS e o Mário Crespo no 60 minutes). Falei neste exemplo para relembrar a conjuntura de desinformação que se pode ter estendido até essa matéria. Houve algo que me esqueci de referir no outro post, sobre o José Vicente Rangel, desde a eleição em 1999 só mudou de cargo duas vezes (ocupando, no total, três cargos no governo), penso que de dois em dois meses foi uma expressão um pouco exagerada que usaste, mesmo sendo alegórica (ou então temos informações diferentes, o que é bem possível). Começou como ministro dos negócios estrangeiros, em 2001 passou para ministro da defesa (sendo civil, o que representou uma fractura com os costumes que caracterizam os sistemas políticos dos países dessa região do mundo) e, em 2002, assumiu o cargo de vice-presidente, tendo sido substituído este ano por Jorge Rodríguez, abandonando o governo. Esta rotatividade, que nem foi assim tanta, não é anormal nem sinal de instabilidade ou corrupção em países de tradições democráticas. Há exemplos muito semelhantes em nações de toda a Europa com reputação de serem democráticas (o que não quer dizer que sejam e, nesse ponto, não podíamos estar mais de acordo). Isto, claro, não retira valor nenhum à tua ideia sobre as funções que ocupa como director de informação de um canal e que merece, por criar questões sobre imparcialidade, ser investigada. Finalizo o post com uma última observação, esta de cariz pessoal, por um lado foi muito bom que tenhas voltado para Portugal, numa altura periclitante como esta, com a vandalização de importantes conquistas sociais, a tua postura construtiva em relação à sociedade é muito útil especialmente agora. E agradeço novamente a tua disponibilidade para falar, de forma equilibrada, de um tema que nem sequer tem muito a ver com o fórum. Quando voltar temos de combinar umas corridas no rFactor, ando a precisar de actividades lúdicas. Vais entrar na Funrace de dia 10? :D
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