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o palhaço Odete amaldiçoado por Salazar
#95
ArrayAproveito este tópico para reflectir sobre uma questão que me tem causado alguma repulsa e que, por se coadunar com a linha de debate até agora, gostava de partilhar com vocês. Tem sido, nos últimos dias, insistentemente veiculado por quase todos os orgãos de comunicação social (senão mesmo todos) o encerramento (sugerindo a compulsividade desse processo) do maior e mais antigo canal de televisão privado na Venezuela, a RCTV. Tem também sido dado um ênfase especial às "manifestações" (espontâneas, claro) conta o "encerramento compulsivo" desse mesmo canal. É um procedimento mais ou menos dentro da mesma lógica da projecção desproporcionada que foi dada, durante a tentativa de golpe de estado gorada de 2002, às imagens de "apoiantes do ditador Chavez" a disparar tiros de revolver sobre os manifestantes, esses mesmos "apoiantes de Chavez", veio mais tarde a ser provado (e notíciado com muito pouco vigor) serem, na realidade, apoiantes do golpe. Há um conjunto de factos que acho imperioso relatar a respeito das convulsões geradas pelo encerramento do canal. Na Venezuela existem 81 canais de televisão que transmitem programas em sinal aberto, apenas três desses canais são propriedade do estado, 709 estações de rádio, apenas três estão vinculadas ao estado. São publicados 118 jornais na Venezuela, 12 de distribuição nacional, todos esses jornais são privados. Os canais de televisão na Venezuela funcionam, tal como em Portugal, de acordo com um sistema de concessões dependentes de renovação periódica. Os critérios para essa renovação são variados mas, no essencial, adopta-se o respeito pela lei e pela constituição como critério preliminar. Durante a tentativa de golpe perpetrada em 2002 que falhou por não ter respaldo por parte da população, que acabou a expulsar os golpistas literalmente ao pontapé, este mesmo canal difundiu apelos incentivando ao apoio da população à insurreição militar e advogando o uso da violência contra os apoiantes de Chavez. Recusou-se a transmitir os apelos veiculados pelos ministros democráticamente eleitos e, enquanto a população cercava os quarteis onde se concentravam as tropas golpistas, essa estação de televisão optou por transmitir um bloco de desenhos animados. Tivesse isto acontecido em Portugal, não teria sido um canal que difundisse apelos de tal sedição imediatamente encerrado pelas autoridades? Terminado o prazo de concessão, na Venezuela, o governo optou, legitimamente, por não renovar a concessão para esse canal invocando motivos mais do que plausíveis. Tal como houve manifestações contra o encerramento, organizadas pelos partidos da oposição (e com legitimidade para tal) houve manifestações muito maiores declarando-se a favor, tal facto também não foi noticiado pelos meios de comunicação de maior relevo em portugal. É este tipo de manipulação que transforma Portugal e a maior parte dos países na europa em sociedades governadas a partir da desinformação e do escamoteamento de toda a informação que ponha em causa a estabilidade dos poderes dominantes. Tem sido falado, repetidamente (e até com bastante razão) que nos países "comunistas" do antigo bloco de leste funcionavam mecanismos de lavagem cerebral e manipulação, penso que um desiquilibro tão hediondamente escandaloso entre o que é notíciado e a realidade, omitindo quase todos os factos relevantes, é um exemplo de como, nas sociedades contemporâneas, esta manipulação, muito mais cínica e dissimulada, através da omissão, atinge proporções com as quais esses incipientes modos de controle de mentalidades usados no leste nunca conseguiriam rivalizar. É uma matéria sobre a qual é cada vez mais importante reflectir e procurar fazer algo que promova a mudança.[/quote]

Bem... agora é que foi... ando sempre a "fugir" a sete pés da política e da sua discussão, pois o meu conhecimento do tema é, basicamente, muito pobre para exprimir-me com propriedade.
Mas ante este post do Sr. Diospiro - cuja opinião respeito INTEIRAMENTE e não pretendo desacreditar de maneira nenhuma - não posso deixar de escrever aqui algumas palavritas....

Ora bem... como emigrante (involuntário... só tinha oito anos quando fui pra lá) que viveu e formou-se como pessoa e profissional na Venezuela, pais que me acolheu de forma soberba por 24 anos, tenho sim neste caso um pouco mais de "pé" onde pisar para falar deste particular tema. E, na minha opinião, a exposição do Sr. Diospiro peca num facto essencial: a falta de conhecimento de "primeira mão" do porque a situação que se apresenta na Venezuela e que levou ao encerramento do canal RCTV.

Sr. Diospiro: sem tirar razão ao que IMPLICA a sua exposição, a mesma está errada em vários pontos, especificamente no que diz respeito à quantidade de canais e à influencia do governo nos meios de comunicação. Venezuela NÃO tem 81 "canais de televisão"... existem, sim, perto de esse número de estações que transmitem programação televisiva em sinal aberto, mas só CINCO de essas estações têm cobertura nacional, nomeadamente, Venevisión, RCTV (agora TVES, do ESTADO), Televen, Venezolanda de Televisión (do ESTADO) e Globovisión, sendo este último um canal de noticias. Ora bem, os donos e dirigentes de Venevisión, dentro da sua sabedoria, alinharam o seu discurso ao do Estado, numa manobra que evidencia a sua inteligência para os negócios... e a sua total falta de ética profissional, ao menos em quando a imparcialidade jornalística se refere. Se vemos agora que tanto Venevisión, VTV e agora TVES são, basicamente, ferramentas ao serviço do estado, ficam Televen e Globovisión para poder funcionar como veículo daqueles que, DEMOCRATICAMENTE, se oponham à actual administração.

Bem... agora resulta que um senhor de nome José Vicente Rangel, que para não entrar em pormenores é um jornalista que também é - ou já foi, visto que muda de cargo cada dois meses... - vice-presidente da há pouco re-baptizada República Bolivariana de Venezuela é também (e alguém que me explique isto...) director de informação da Televen, e está entre os três "bidders" para a compra do canal, sendo o segundo o seu cunhado (...) e o terceiro... adivinhem... o Estado!

Ora, nos resta Globovisión... que esses sim, continuam independentes e a ser a única "voz e cara" da oposição política venezuelana. E então? Está tudo bem, não? A oposição tem um canal! Bom... parece que não por muito tempo, porque o Estado, na pessoa do seu Ministro da Comunicação Willian Lara, já iniciou uma "investigação por actos subversivos" contra o dito cujo, ao amparo de uma lei promulgada pela assembleia geral da república (99% "chavista") conhecida como a lei "Mordaza" condenada internacionalmente pelo seu carácter de óbvio mecanismo de censura. Os actos subversivos da Globovisión? A transmissão de um video duma das tentativas de assassinato do Papa JP II ao som de uma música de um conhecido músico de salsa panamense chamado Rubén Blades, seguida de uma mensagem que diz qualquer coisa do tipo "estão tentando fazer o mesmo com a nossa liberdade de expressão. E tal como o Papa, vamos sobreviver a isto também".

Em quanto às outras - segundo as contas - 75 ou 76 estações de televisão... aconselho a que quem estiver interessado procure na net, que há bastante informação disto, quem é o dono DIRECTO de 35% dessas estações (o Estado) quem financiou a abertura de 22 novas "estações comunitárias do povo" nos últimos quatro anos (o Estado) e que tipo de programação são OBRIGADOS todos os canais não operados/propriedade do Estado a transmitir para poderem manter-se no ar (se disse programação do Estado, adivinhou...)

Nem vou entrar na imprensa porque é mais do mesmo, e parafraseando o próprio Chávez, "el que tenga ojos que vea!" (quem tenha olhos que veja).

Mais uma vez, nem sequer estou em desacordo com o Sr. Diospiro Verde (acho piada escrever esse nick, mas não sei o seu nome real...) no que respeita à mensagem IMPLÍCITA do seu post - estamos numa sociedade onde a informação é poder, e os meios de comunicação, muitas das vezes, manipulam a informação à conveniência da parte que mais lhes interessa, não sejam emissoras como a CNN boa amostra disso... mas por favor, Sr. Diospiro... não diga que o encerramento de RCTV foi legítimo. Não foi mais que um "cala a boca" ao povo venezuelano, da mesma forma que lhe digo que não se deixe manipular na sua opinião referente aos gunas armados que dispararam contra os manifestantes em 2000 e 2001... o que você ali exprime é o que cá chegou pelos mesmos meios de comunicação que critica. E a verdade desses factos, como muitos outros, é outra.

Não pensava que ia escrever tanto, e a quem leu até aqui, agradeço. Venezuela é um pais maravilhoso, bendito com uma riqueza material incrível, que actualmente está imerso numa crise social que se arrasta desde já há uns oito anos, fruto de uma política descuidada e irresponsável por parte de governo e opositores por igual, que conseguiram por em pé de guerra duas facções que não existiam num pais onde o comum era que todos se dessem bem com todos. Confesso que vim da Venezuela de volta para Portugal porque tal situação se me fez insuportável, junto com a crescente e descontrolada insegurança que reina na totalidade do território nacional venezuelano. Mas não sai de lá porque sou rico e tinha medo de perder o que tinha - longe disso. Vim de lá porque o Governo da República Bolivariana de Venezuela cortou-me (a mim e a muitos outros emigrantes) as asas e tirou-me a possibilidade de crescer no pais que considerei minha casa por 24 anos.

Cheguei a Portugal há 4 anos, com 400 euros de capital no bolso e a sorte de ter um familiar que me recebeu e me deu a oportunidade de começar de novo. Não digo isto por querer ganhar simpatias nem para lamentar a minha sorte. Mas hoje, 4 anos depois, consigo dizer que estou cá com a minha família, que consegui trazer de lá, tenho muitas dificuldades como todos mas posso ir para a rua quando me apetece sem sentir medo de que um elemento de um Círculo Bolivariano (digamos, uma espécie de PIDE "light") me ponha na lista "negra" de pessoas que não podem trabalhar para o Estado (o MAIOR empregador do pais, especialmente no petróleo) porque não concordam com as ideias anacrónicas e comprovadamente irracionais do Presidente da República.

Para terminar, ia dizer que se me apetecia ir pró meio da rua fazer piadas do Sócrates podia fazê-lo, mas ainda me suspendem...

Então, Sr. Diospiro e todos os que leram até aqui... que não fique mal entre nós, mas da próxima vez, antes de afirmar alguma coisa da qual (aparentemente) só sabe o que lhe chega pelos meios de comunicação, pense duas vezes, especialmente se o que quer criticar é precisamente o papel de estes.

E se têm conhecimento de primeira mão, então desculpe que lhe diga, mas não consigo compreender como pode manifestar uma opinião que, ao meu parecer, "apoia" um desequilibrado mental que tem ao seu dispor montes e montes de petrodólares e as armas de uma nação ao seu comando.

Obrigado pela paciência, se leram até aqui.
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o palhaço Odete amaldiçoado por Salazar - by venes - 02-06-2007, 02:23 AM

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