Thread Rating:
  • 0 Vote(s) - 0 Average
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
o palhaço Odete amaldiçoado por Salazar
#91
ArrayTens de me gravar isso :23::23::23::23:
Continuando um pouco no tema da reflexão política e o cinema (ou, neste caso, cinema baseado num romance), aconselho a todos o visionamento do filme "A Clockwork Orange", do mestre Stanley Kubrick, baseada na obra do escritor Anthonny Burgess, que a RTP1 irá apresentar amanhã à noite (merecem um :fixe: por isso).

Não é um filme (ou livro!) que eu aconselho aos mais novos, nem às mentes mais susceptíveis (a primeira vez que vi, fiquei de queixo no chão nos primeiros 30 minutos, tal a violência e malvadez apresentada no filme), mas retrata muito subtilmente os problemas que se passam nos dias de hoje entre a política, os meio de comunicação social e a liberdade humana (e o livro é dos anos 1960!).[/quote]

Também já vi o filme, quando era adolescente. Achei muito bom. já que estamos tão cinéfilos, aproveito o mote para recomendar também o "2001 Odisseia no espaço", do mesmo realizador. O 2010 teria mais a ver com a reflexão propriamente "política", por isso também fica aqui a referência. Mas o 2001, definitivamente, é um dos melhores filmes de todos os tempos.
[Image: celeritas_sig.png]
Reply
#92
Só naquela, por acaso está a dar neste perciso momento o Full Metal Jacket :)
Reply
#93
Eu ADORO Clockwork Orange (porventura o meu filme favorito) e DEVORO todas as obras de Kubrick. 2001 foi o filme que me fez descobrir Kubrick, quando o vi fiquei de tal forma impressionado que fui no dia seguinte logo comprar o filme (na altura VHS) e passei o dia a reve-lo. A partir dai fui descobrindo o resto dos filmes dele sendo que o já referido Clockwork e o Dr. Stranglove são provavelmente os que gosto mais.
O livro do Burgess só o li bastante mais tarde a versão Portuguesa (depois arranjei a britanica) e percebi porque o filme é tão bom. É uma excelente critica à sociedade moderna que valeu ao Kubrick ameaças de morte, tenho de destacar Malcom Mcdowell que esteve ENORME, a performance of a lifetime.
Dou o mesmo conselho do Gil, vejam o filme que não se irão arrepender, viddie well my brothers, viddie well:bigsmile:
[Image: mclev2.jpg]
[Image: bercarnt3qu5.jpg]
Reply
#94
Aproveito este tópico para reflectir sobre uma questão que me tem causado alguma repulsa e que, por se coadunar com a linha de debate até agora, gostava de partilhar com vocês. Tem sido, nos últimos dias, insistentemente veiculado por quase todos os orgãos de comunicação social (senão mesmo todos) o encerramento (sugerindo a compulsividade desse processo) do maior e mais antigo canal de televisão privado na Venezuela, a RCTV. Tem também sido dado um ênfase especial às "manifestações" (espontâneas, claro) conta o "encerramento compulsivo" desse mesmo canal. É um procedimento mais ou menos dentro da mesma lógica da projecção desproporcionada que foi dada, durante a tentativa de golpe de estado gorada de 2002, às imagens de "apoiantes do ditador Chavez" a disparar tiros de revolver sobre os manifestantes, esses mesmos "apoiantes de Chavez", veio mais tarde a ser provado (e notíciado com muito pouco vigor) serem, na realidade, apoiantes do golpe. Há um conjunto de factos que acho imperioso relatar a respeito das convulsões geradas pelo encerramento do canal. Na Venezuela existem 81 canais de televisão que transmitem programas em sinal aberto, apenas três desses canais são propriedade do estado, 709 estações de rádio, apenas três estão vinculadas ao estado. São publicados 118 jornais na Venezuela, 12 de distribuição nacional, todos esses jornais são privados. Os canais de televisão na Venezuela funcionam, tal como em Portugal, de acordo com um sistema de concessões dependentes de renovação periódica. Os critérios para essa renovação são variados mas, no essencial, adopta-se o respeito pela lei e pela constituição como critério preliminar. Durante a tentativa de golpe perpetrada em 2002 que falhou por não ter respaldo por parte da população, que acabou a expulsar os golpistas literalmente ao pontapé, este mesmo canal difundiu apelos incentivando ao apoio da população à insurreição militar e advogando o uso da violência contra os apoiantes de Chavez. Recusou-se a transmitir os apelos veiculados pelos ministros democráticamente eleitos e, enquanto a população cercava os quarteis onde se concentravam as tropas golpistas, essa estação de televisão optou por transmitir um bloco de desenhos animados. Tivesse isto acontecido em Portugal, não teria sido um canal que difundisse apelos de tal sedição imediatamente encerrado pelas autoridades? Terminado o prazo de concessão, na Venezuela, o governo optou, legitimamente, por não renovar a concessão para esse canal invocando motivos mais do que plausíveis. Tal como houve manifestações contra o encerramento, organizadas pelos partidos da oposição (e com legitimidade para tal) houve manifestações muito maiores declarando-se a favor, tal facto também não foi noticiado pelos meios de comunicação de maior relevo em portugal. É este tipo de manipulação que transforma Portugal e a maior parte dos países na europa em sociedades governadas a partir da desinformação e do escamoteamento de toda a informação que ponha em causa a estabilidade dos poderes dominantes. Tem sido falado, repetidamente (e até com bastante razão) que nos países "comunistas" do antigo bloco de leste funcionavam mecanismos de lavagem cerebral e manipulação, penso que um desiquilibro tão hediondamente escandaloso entre o que é notíciado e a realidade, omitindo quase todos os factos relevantes, é um exemplo de como, nas sociedades contemporâneas, esta manipulação, muito mais cínica e dissimulada, através da omissão, atinge proporções com as quais esses incipientes modos de controle de mentalidades usados no leste nunca conseguiriam rivalizar. É uma matéria sobre a qual é cada vez mais importante reflectir e procurar fazer algo que promova a mudança.
[Image: celeritas_sig.png]
Reply
#95
ArrayAproveito este tópico para reflectir sobre uma questão que me tem causado alguma repulsa e que, por se coadunar com a linha de debate até agora, gostava de partilhar com vocês. Tem sido, nos últimos dias, insistentemente veiculado por quase todos os orgãos de comunicação social (senão mesmo todos) o encerramento (sugerindo a compulsividade desse processo) do maior e mais antigo canal de televisão privado na Venezuela, a RCTV. Tem também sido dado um ênfase especial às "manifestações" (espontâneas, claro) conta o "encerramento compulsivo" desse mesmo canal. É um procedimento mais ou menos dentro da mesma lógica da projecção desproporcionada que foi dada, durante a tentativa de golpe de estado gorada de 2002, às imagens de "apoiantes do ditador Chavez" a disparar tiros de revolver sobre os manifestantes, esses mesmos "apoiantes de Chavez", veio mais tarde a ser provado (e notíciado com muito pouco vigor) serem, na realidade, apoiantes do golpe. Há um conjunto de factos que acho imperioso relatar a respeito das convulsões geradas pelo encerramento do canal. Na Venezuela existem 81 canais de televisão que transmitem programas em sinal aberto, apenas três desses canais são propriedade do estado, 709 estações de rádio, apenas três estão vinculadas ao estado. São publicados 118 jornais na Venezuela, 12 de distribuição nacional, todos esses jornais são privados. Os canais de televisão na Venezuela funcionam, tal como em Portugal, de acordo com um sistema de concessões dependentes de renovação periódica. Os critérios para essa renovação são variados mas, no essencial, adopta-se o respeito pela lei e pela constituição como critério preliminar. Durante a tentativa de golpe perpetrada em 2002 que falhou por não ter respaldo por parte da população, que acabou a expulsar os golpistas literalmente ao pontapé, este mesmo canal difundiu apelos incentivando ao apoio da população à insurreição militar e advogando o uso da violência contra os apoiantes de Chavez. Recusou-se a transmitir os apelos veiculados pelos ministros democráticamente eleitos e, enquanto a população cercava os quarteis onde se concentravam as tropas golpistas, essa estação de televisão optou por transmitir um bloco de desenhos animados. Tivesse isto acontecido em Portugal, não teria sido um canal que difundisse apelos de tal sedição imediatamente encerrado pelas autoridades? Terminado o prazo de concessão, na Venezuela, o governo optou, legitimamente, por não renovar a concessão para esse canal invocando motivos mais do que plausíveis. Tal como houve manifestações contra o encerramento, organizadas pelos partidos da oposição (e com legitimidade para tal) houve manifestações muito maiores declarando-se a favor, tal facto também não foi noticiado pelos meios de comunicação de maior relevo em portugal. É este tipo de manipulação que transforma Portugal e a maior parte dos países na europa em sociedades governadas a partir da desinformação e do escamoteamento de toda a informação que ponha em causa a estabilidade dos poderes dominantes. Tem sido falado, repetidamente (e até com bastante razão) que nos países "comunistas" do antigo bloco de leste funcionavam mecanismos de lavagem cerebral e manipulação, penso que um desiquilibro tão hediondamente escandaloso entre o que é notíciado e a realidade, omitindo quase todos os factos relevantes, é um exemplo de como, nas sociedades contemporâneas, esta manipulação, muito mais cínica e dissimulada, através da omissão, atinge proporções com as quais esses incipientes modos de controle de mentalidades usados no leste nunca conseguiriam rivalizar. É uma matéria sobre a qual é cada vez mais importante reflectir e procurar fazer algo que promova a mudança.[/quote]

Bem... agora é que foi... ando sempre a "fugir" a sete pés da política e da sua discussão, pois o meu conhecimento do tema é, basicamente, muito pobre para exprimir-me com propriedade.
Mas ante este post do Sr. Diospiro - cuja opinião respeito INTEIRAMENTE e não pretendo desacreditar de maneira nenhuma - não posso deixar de escrever aqui algumas palavritas....

Ora bem... como emigrante (involuntário... só tinha oito anos quando fui pra lá) que viveu e formou-se como pessoa e profissional na Venezuela, pais que me acolheu de forma soberba por 24 anos, tenho sim neste caso um pouco mais de "pé" onde pisar para falar deste particular tema. E, na minha opinião, a exposição do Sr. Diospiro peca num facto essencial: a falta de conhecimento de "primeira mão" do porque a situação que se apresenta na Venezuela e que levou ao encerramento do canal RCTV.

Sr. Diospiro: sem tirar razão ao que IMPLICA a sua exposição, a mesma está errada em vários pontos, especificamente no que diz respeito à quantidade de canais e à influencia do governo nos meios de comunicação. Venezuela NÃO tem 81 "canais de televisão"... existem, sim, perto de esse número de estações que transmitem programação televisiva em sinal aberto, mas só CINCO de essas estações têm cobertura nacional, nomeadamente, Venevisión, RCTV (agora TVES, do ESTADO), Televen, Venezolanda de Televisión (do ESTADO) e Globovisión, sendo este último um canal de noticias. Ora bem, os donos e dirigentes de Venevisión, dentro da sua sabedoria, alinharam o seu discurso ao do Estado, numa manobra que evidencia a sua inteligência para os negócios... e a sua total falta de ética profissional, ao menos em quando a imparcialidade jornalística se refere. Se vemos agora que tanto Venevisión, VTV e agora TVES são, basicamente, ferramentas ao serviço do estado, ficam Televen e Globovisión para poder funcionar como veículo daqueles que, DEMOCRATICAMENTE, se oponham à actual administração.

Bem... agora resulta que um senhor de nome José Vicente Rangel, que para não entrar em pormenores é um jornalista que também é - ou já foi, visto que muda de cargo cada dois meses... - vice-presidente da há pouco re-baptizada República Bolivariana de Venezuela é também (e alguém que me explique isto...) director de informação da Televen, e está entre os três "bidders" para a compra do canal, sendo o segundo o seu cunhado (...) e o terceiro... adivinhem... o Estado!

Ora, nos resta Globovisión... que esses sim, continuam independentes e a ser a única "voz e cara" da oposição política venezuelana. E então? Está tudo bem, não? A oposição tem um canal! Bom... parece que não por muito tempo, porque o Estado, na pessoa do seu Ministro da Comunicação Willian Lara, já iniciou uma "investigação por actos subversivos" contra o dito cujo, ao amparo de uma lei promulgada pela assembleia geral da república (99% "chavista") conhecida como a lei "Mordaza" condenada internacionalmente pelo seu carácter de óbvio mecanismo de censura. Os actos subversivos da Globovisión? A transmissão de um video duma das tentativas de assassinato do Papa JP II ao som de uma música de um conhecido músico de salsa panamense chamado Rubén Blades, seguida de uma mensagem que diz qualquer coisa do tipo "estão tentando fazer o mesmo com a nossa liberdade de expressão. E tal como o Papa, vamos sobreviver a isto também".

Em quanto às outras - segundo as contas - 75 ou 76 estações de televisão... aconselho a que quem estiver interessado procure na net, que há bastante informação disto, quem é o dono DIRECTO de 35% dessas estações (o Estado) quem financiou a abertura de 22 novas "estações comunitárias do povo" nos últimos quatro anos (o Estado) e que tipo de programação são OBRIGADOS todos os canais não operados/propriedade do Estado a transmitir para poderem manter-se no ar (se disse programação do Estado, adivinhou...)

Nem vou entrar na imprensa porque é mais do mesmo, e parafraseando o próprio Chávez, "el que tenga ojos que vea!" (quem tenha olhos que veja).

Mais uma vez, nem sequer estou em desacordo com o Sr. Diospiro Verde (acho piada escrever esse nick, mas não sei o seu nome real...) no que respeita à mensagem IMPLÍCITA do seu post - estamos numa sociedade onde a informação é poder, e os meios de comunicação, muitas das vezes, manipulam a informação à conveniência da parte que mais lhes interessa, não sejam emissoras como a CNN boa amostra disso... mas por favor, Sr. Diospiro... não diga que o encerramento de RCTV foi legítimo. Não foi mais que um "cala a boca" ao povo venezuelano, da mesma forma que lhe digo que não se deixe manipular na sua opinião referente aos gunas armados que dispararam contra os manifestantes em 2000 e 2001... o que você ali exprime é o que cá chegou pelos mesmos meios de comunicação que critica. E a verdade desses factos, como muitos outros, é outra.

Não pensava que ia escrever tanto, e a quem leu até aqui, agradeço. Venezuela é um pais maravilhoso, bendito com uma riqueza material incrível, que actualmente está imerso numa crise social que se arrasta desde já há uns oito anos, fruto de uma política descuidada e irresponsável por parte de governo e opositores por igual, que conseguiram por em pé de guerra duas facções que não existiam num pais onde o comum era que todos se dessem bem com todos. Confesso que vim da Venezuela de volta para Portugal porque tal situação se me fez insuportável, junto com a crescente e descontrolada insegurança que reina na totalidade do território nacional venezuelano. Mas não sai de lá porque sou rico e tinha medo de perder o que tinha - longe disso. Vim de lá porque o Governo da República Bolivariana de Venezuela cortou-me (a mim e a muitos outros emigrantes) as asas e tirou-me a possibilidade de crescer no pais que considerei minha casa por 24 anos.

Cheguei a Portugal há 4 anos, com 400 euros de capital no bolso e a sorte de ter um familiar que me recebeu e me deu a oportunidade de começar de novo. Não digo isto por querer ganhar simpatias nem para lamentar a minha sorte. Mas hoje, 4 anos depois, consigo dizer que estou cá com a minha família, que consegui trazer de lá, tenho muitas dificuldades como todos mas posso ir para a rua quando me apetece sem sentir medo de que um elemento de um Círculo Bolivariano (digamos, uma espécie de PIDE "light") me ponha na lista "negra" de pessoas que não podem trabalhar para o Estado (o MAIOR empregador do pais, especialmente no petróleo) porque não concordam com as ideias anacrónicas e comprovadamente irracionais do Presidente da República.

Para terminar, ia dizer que se me apetecia ir pró meio da rua fazer piadas do Sócrates podia fazê-lo, mas ainda me suspendem...

Então, Sr. Diospiro e todos os que leram até aqui... que não fique mal entre nós, mas da próxima vez, antes de afirmar alguma coisa da qual (aparentemente) só sabe o que lhe chega pelos meios de comunicação, pense duas vezes, especialmente se o que quer criticar é precisamente o papel de estes.

E se têm conhecimento de primeira mão, então desculpe que lhe diga, mas não consigo compreender como pode manifestar uma opinião que, ao meu parecer, "apoia" um desequilibrado mental que tem ao seu dispor montes e montes de petrodólares e as armas de uma nação ao seu comando.

Obrigado pela paciência, se leram até aqui.
Reply
#96
Vitor Enes, o meu nome é Francisco Figueiredo. Não vou tratar-te por “senhor” porque penso que se justifica um modo mais “familiar” de tratamento dentro do fórum, se não concordares com esta falta de reciprocidade, diz e deixarei de tratar-te por tu. A mim, trata-me como mais te aprouver. Em primeiro lugar, acho importante agradecer e salientar o exórdio que fizeste ao teu post, onde declaraste respeitar inteiramente a minha opinião, não pretender desacreditá-la e até concordar com as suas “implicações implícitas”. Devo dizer que esse respeito que me prestas é inteiramente recíproco e, sobre o que disseste no final do teu post, não ficamos de mal, ficamos de bem porque este debate é valioso para ambos (espero que concordes) e a diversidade de opiniões é sempre positiva. Não tenhas pejo em desacreditar a minha opinião se achares que são inválidas as ideias que exprimo, agradeço até que o faças pois estou sempre disposto a rever construtivamente as opiniões que tenho sobre o que quer que seja. Não foi preciso paciência para ler o teu post e recomendo a qualquer pessoa que o leia, com atenção, na íntegra. Gostava, por curiosidade, de saber o que te levou a deixar a Venezuela (se houver motivos para além dos que já referiste) e que profissão exercias lá (curiosidade genuína, não se trata de hipocrisia nem de nenhuma cilada, até porque já disseste que não és rico e a situação em que voltaste pareceu-me bastante desesperada, fico feliz que tenhas conseguido o apoio determinante para reorientares a tua vida), a pergunta pode parecer traiçoeira mas está muito longe de ser esse o objectivo e estou certo que não terás contemplações em responder prontamente, a menos que exponha algum aspecto da tua vida pessoal que não querias tornar público aqui, o que seria inteiramente legítimo. O teu conhecimento em primeira mão, não representa o fim da discussão, mas sim o seu princípio. Quanto ao post em si, tenho, como é previsível, algumas observações a fazer, que não pretendem, de forma alguma, ignorar esse teu conhecimento, que valorizo e bastante. Quanto à falta de informação no meu post em termos da composição relativa da cobertura dos canais de televisão, ou “estações” como as designaste, já a tinha presente. É preciso notar, em primeiro lugar, que os canais regionais de televisão (os privados) são muito mais vistos do que os canais de cobertura nacional, tal como acontece em Espanha, o que só reforça a importância dos canais privados fora do controle do estado. Sobre esses dados, do ponto de vista estatístico, acredito que tenhamos a mesma informação. Sobre esta questão da propriedade das “estações” televisivas, em que atribuis 35% da sua propriedade ao estado, peço primeiro para citares as fontes que sustentam essa afirmação (não se trata de desconfiança nem de desprezo pelas tuas experiências dentro do país, mas penso que é uma questão elementar que necessita de provas concretas em vez de testemunhos subjectivos), porque apelar a uma “busca na internet porque há muita informação sobre isso” é recorrer exactamente aos mesmos meios de informação que tanto tu como eu estamos de acordo em criticar, ou pelo menos correr o risco de obter informação nessas fontes. O cerne desta parte do teu post consiste na “manipulação” que é, segundo a tua opinião, exercida sobre esses canais (sejam do estado, sejam privados) recorrendo a uma lei chamada “Mordaza” (ou mordaça... lol) que foi promulgada por uma assembleia 99% chavista porque os partidos da oposição alegaram falta de legitimidade das eleições e boicotaram-nas, uma vez que já sabiam que as iriam perder por uma larga margem, o que só realçaria a fragilidade dessa mesma oposição em termos do apoio dos eleitores. Quanto aos canais de televisão com cobertura nacional, acho que para continuar a debater este ponto é preciso que explicites o que entendes por “alinhamento do discurso com o estado”, já que não compactuar com os interesses da oposição não corresponde a alinhar o discurso pelo estado, corresponde a fazer uma cobertura equilibrada e isenta, mas não acredito que seja a isso que te referes e estou certo que tens muito a dizer sobre o assunto em termos desse favorecimento prestado ao estado por esses canais, que tenho terei todo o interesse em ler, analisar e reflectir sobre o que disseres. A RCTV, durante o golpe de estado, tinha directizes internas que impediam o canal de transmitir informações que não fossem abertamente contra o governo, o que levou mesmo à demissão do director de informação. O canal supostamente a soldo do estado, o novo canal TVES, assegura uma distribuição da programação equilibrada entre produtores “independentes, comunitários e sociais”, segundo a definição dada pelo canal, que não são necessáriamente nem tendencialmente afectos ao governo. Segundo o que diz o Herald Tribune (que é tudo menos pro-chavez) esse princípio está a ser aplicado na prática e com resultados benéficos para a liberdade de informação. Se, segundo o que dizes, a “Globovision” é um canal independente, então não é um canal “da oposição”, houve uma contradição nesse aspecto, mas assumo que o que querias dizer é que se trata de um canal imparcial e sem favorecimentos que está prestes a ser fechado pelo estado de acordo com a lei “Mordaza”, ou “Lei da Responsabilidade Social em Rádio e Televisão”. Esta lei, que foi condenada internacionalmente como mecanismo de censura, é uma lei exponencialmente mais permissiva que a maior parte da legislação sobre a mesma matéria nos países que a condenam, como por exemplo Portugal, onde a lei que diz que “associações de trabalhadores” ou “patrões” não podem formar canais de televisão mas podem tê-lo enquanto empresários individuais, penso que as consequências disto são óbvias para qualquer pessoa. Essa lei, consiste numa declaração de princípios que, formalmente (digo formalmente para não haver acusações de ingenuidade deliberada) preconiza ideias como a promoção da paz, dos direitos humanos, da cultura, da educação, da saúde e a conformidade com a lei orgânica das telecomunicações (que existe em todos países). Li a lei e não encontrei lá nenhum princípio autocrático ou de censura, muito pelo contrário. Essa investigação da qual falas, a acontecer como disseste (e não tenho motivos nenhuns para duvidar de ti) parece-me, manifestamente, desproporcionada. Mas dentro do contexto em que teve lugar essa transmissão, uma INVESTIGAÇÃO, que não corresponde propriamente a uma tomada de posição da parte de ninguém, pode ser justificável, já que, há muito pouco tempo, um canal privado apoiou manifestamente um golpe de estado que estava contra todos os princípios constitucionais e infringido todo o espectro de leis da comunicação que existiam e que tinham sido aprovadas pelos governos anteriores ao de Chavez. O estado fez uma queixa ao Ministério Público que decide sozinho sobre a matéria, já que o estado não tem poderes para, autonomamente, fazer o que quer que seja em relação a esse ou a qualquer outro canal. A lei Portuguesa, em vigor (e prestes a se alterada) diz que os operadores que actuem ao abrigo da concessão do serviço público de televisão devem assegurar uma programação de qualidade, equilibrada e diversificada, que contribua para a formação cultural e cívica dos trabalhadores, promovendo o pluralismo político, religioso, social e cultural, assim como o acesso de todos os telespectadores à informação, à cultura, à educação e ao entretenimento de qualidade. Esses operadores estão incumbidos de fornecer uma programação pluralista e que tenha em conta os interesses das minorias e a promoção da diversidade cultural, proporcionar uma informação rigorosa, independente e pluralista e garantir a cobertura noticiosa dos principais acontecimentos nacionais e internacionais. Estou a citar a lei à lei à letra, isto não é muito diferente da lei “Mordaza”, é isto uma forma autocratica de ablação da liberdade de informação e da liberdade de expressão dos operadores de canais de televisão? Se a lei “Mordaza” (até escrevo com letra grande porque não quero quebrar o impacto da sonoridade desta palavra) representa um modo de censura, então devíamos apressar-nos a rever a lei que cá existe (e eu até concordo que essa lei seja revista). Nos limites à liberdade de programação, a lei portuguesa diz que todos os elementos dos serviços de programas devem respeitar, no que se refere à sua apresentação e ao seu conteúdo, a dignidade da pessoa humana, os direitos fundamentais e a livre formação da personalidade das crianças e adolescentes, não devendo , em caso algum, conter pornografia em serviço de acesso não condicionado, a violência gratuita, ou incitar ao ódio, ao racismo e à xenofobia. O canal que foi fechado na Venezuela, teria, por estes critérios sido fechado em Portugal, mas penso que estamos de acordo quanto à falta de isenção desse canal. Talvez lhe atribuamos significados ligeiramente diferentes em termos da legitimidade, pragmática, dessa falta de isenção. Quanto à presença do Rangel como director de informação desse canal privado, que é verdadeira e, atenção, SUSPEITA (não estou aqui como defensor do Chavez e do governo, embora esteja, na prática, a fazê-lo, mas, espero eu, sem perder a noção do razoável), penso que é importante, mais do que citá-la, identificar as provas de influência do estado nas decisões editoriais desse canal, já que os eventos que citei sobre a RCTV estão mais que provados, não se trata de disposições subjectivas sobre ligações hipotéticas (que não nego que possam existir e existem provavelmente). Há que notar que cá em Portugal, até o Miguel Portas foi redactor-chefe da revista “Visão”, que é propriedade do Belmiro de Azevedo, penso que isso não significava exactamente uma promiscuidade partidária. É preciso também, sem nos deixar sugestionar pelas realidades do que acontece em Portugal, reconhecer que essa acumulação de funções em concreto, num país democrático ou com um governo democrático, não deve necessariamente ser vista como uma ameaça, em alguns casos pode ser até natural, mas não estou a dizer que este é um desses casos. Uma vez que não te referiste à imprensa, não falo sobre a imprensa. Sobre a insegurança na Venezuela, penso que essa insegurança se justifica com indicadores que são independendentes das experiências localizadas e parciais que temos no terreno (neste caso tu), as disparidades sociais estão na origem da insegurança tal como em muitos outros países onde predomina essa situação. Desigualdades que foram causadas, manifestamente, pelos governos que precederam a eleição de Chavez, os mesmos que agora se opõem a ele e que não têm o apoio da população cuja vida está a mudar para melhor graças ao governo que elegeu democraticamente. A violência ligada directamente ás perturbações políticas pode ser, muito mas facilmente, atribuída à propaganda anti-chavez do que ao governo, já que são os canais, jornais e rádios anti-governamentais, assim como as máquinas de propaganda dos próprios partidos que difundem apelos beligerantes em sintonia com o discurso dos partidos da oposição, que incentivam à revolta. Com muito pouco sucesso. A questão essencial do problema, até agora, consistiu no fecho do canal que, por ter agido à margem da lei, não viu renovada a concessão, volto a dizer (apesar de me teres dito expressamente para não o fazer) que essa decisão foi, do meu ponto de vista, inteiramente legítima. Sobre a ingerência do estado nos meios de comunicação, as tuas ideias não são, nem de perto nem de longe, para descartar, aliás, espero que possamos continuar a discuti-las até porque agora galvanizaste-me para procurar mais informações que vou submeter a escrutínio no seguimento de tudo o que disseste, mas penso que são, na esmagadora maioria, baseadas em provas circunstanciais ou em coisas que, como falei durante o post, não foram clarificadas. Quanto aos disparos sobre os manifestantes, tal como calculas, preciso de um pouco mais do que a tua palavra para mudar de opinião (embora a aceite em relação a muitas outras coisas) por isso, se puderes indicar-me fontes que reproduzam o que entendes pela verdade, podemos também discutir esses acontecimentos lamentáveis e, quem sabe, passar a estar de acordo. A única coisa no que disseste que não será levada a sério por mim serão as tuas ordens para não dizer isto ou aquilo, já que isso seria contra a liberdade de expressão e pouco responsável da minha parte. Acho importante ter sempre presente que a Venezuela pertence aos Venezuelanos (que tu tão bem conheces) e não aos estrangeiros com interesses na Venezuela (nos quais tu não te incluis, pelo menos no que diz respeito a interesses egoístas). A hora é tardia e já tenho fita-cola nas pálpebras para não adormecer, vou estar fora até Terça-Feira, mas não te coibas de deixar aqui mais testemunhos sobre as tuas experiências na Venezuela e opiniões sobre tudo o que falámos ou mais coisas que te ocorram. Obrigado pela resposta rápida e concisa que deste.
[Image: celeritas_sig.png]
Reply
#97
Jesus!! Como é q alguém pode escrever tanto e em tão pouco tempo!! :blink::laugh:
Lynx.Racing.Team | Altough an endangered species the Iberian Lynx keeps racing!! Visit: SOSLynx.org
Reply
#98
ArrayJesus!! Como é q alguém pode escrever tanto e em tão pouco tempo!! :blink::laugh:[/quote]

Este tópico já dava um livro :bigsmile::bigsmile:
[Image: fundonk0.jpg]
Reply
#99
Francisco:

Neste post não me estendo muito... LOL... até porque a atitude demonstrada (por ambos) é, na minha opinião, um exemplo que muita gente poderia tomar daquilo que deveria ser um debate civilizado. Duas coisinhas rápidas:

1) Até agradeço que me trates por tu, e retribuo o gesto, em franca quebra da comum tendência formalista deste nosso povo... lol...
2) Usar aquilo de "Sr. Diospiro Verde" foi um recurso (aliás, foi um roubo... lol) de o que percebo como uma escolha (a do teu nick) que encerra no seu uso uma certa sátira que espero ter percebido correctamente.

Com respeito à "nossa" discussão, bem... como (e muito bem) o dizes, a minha palavra (e a de NINGUÉM) deveria ser suficiente para mudares de opinião, facto que aplaudo e imito sempre que posso. E claro que tens razão, no que diz respeito às fontes de que dispomos. Não vou fazer disto uma promessa - porque, como disse no meu post original, não tenho boa fundamentação para discutir de política "como deve ser".

Concordo plenamente (e só não falei no assunto no meu post porque estava falando da Venezuela) com a tua opinião do "sistema" que, sem querer usar mal a palavra, "regula" a comunicação social e os seus órgãos no nosso pais. Portugal na minha opinião é, ao fim de contas, uma democracia em fraldas, com uma marcada tendência teimosa a não querer ouvir e a ignorar a experiência de outros países, e especificamente o tema "meios" tem uma ou duas características que ainda hoje me parecem escandalosas, especialmente no que se refere ao tema de controlo e sim, CENSURA, coisa que acho que existe em forma descarada. E nem sequer entremos em coisas como o "segredo de justiça", porque ai....

Não tenho problemas em que se saiba porque sai da Venezuela. Não foi nada diferente do motivo que levou a muitos outros a sair. Por incrível que pareça, o facto de ser branco como cal (hehehehe) e de ser estrangeiro foram as principais razões. Existe "no ar" da sociedade venezuelana uma marcada tendência xenófoba, que não existia nem de perto há uns anos atrás, e temo que esta atitude seja produto de um discurso incendiário do presidente e os seus seguidores. Não conseguir emprego por mais de 18 meses (sou designer gráfico, já agora... e não sou mau no que faço:blink1:) porque os privados não contratavam ninguém (a economia esta(va) completamente estagnada) e o estado não me contratava porque assinei uma lista a favor de convocar um referendo revogatório ao mandato do Chávez - é que todas as listas assinadas e entregues ao Consejo Nacional Electoral (o PODER ELEITORAL INDEPENDENTE da Venezuela) foram parar, misteriosamente, às mãos do Estado e utilizadas como "filtro" para despedir ou bloquear a entrada às empresas do Estado por parte dos assinantes. Assim não se pode.

Bem. Vou ficar por aqui, com o compromisso de que tão pronto tenha alguma informação adicional que sustente as minhas afirmações o farei saber neste mesmo fórum. Aproveito para elogiar sinceramente o teu estilo e o teu discurso. Tens um uso da palavra que só posso esperar algum dia conseguir aproximar. Eu não escrevi em português durante 24 anos, e o espanhol é suficientemente parecido ao português (mas essencialmente diferente) para causar-me problemas ao tratar de escrevê-lo, pelo que peço desculpas. E finalmente, agradeço a civilização demonstrada. Bastaria 15% mais de gente com essa tua atitude para fazer deste pais um lugar diferente.
Reply
ArrayJesus!! Como é q alguém pode escrever tanto e em tão pouco tempo!! :blink::laugh:[/quote]

Por um lado, o PCP tem um arquivo com partes de discursos já feitos e muito bem organizado. É por isso que os comunistas dizem sempre a mesma coisa. Por outro, eles não têm outro remédio senão ter lábia. Afinal é a única coisa que lhes resta:biggrinbandit:

Eu cá vou passar a visitar os foruns políticos a ver se falam de carros :evil:
Reply


Forum Jump:


Users browsing this thread: 1 Guest(s)