um ano depois e here we go again...
Acabei de ler, por razões de trabalho, o livro de Ricardo Sá Fernandes sobre a morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. À algum tempo que estava convencido da tese do atentado. Mas "O Crime de Camarate" é de um rigor exaustivo esmagador, quase cansativo. Não deixa nada por tratar. E o meu convencimento intuitivo transformou-se, assim, numa sólida convicção.
Mas a principal razão porque falo aqui do livro é outra: o papel dos tribunais, do Ministério Público, da Polícia Judiciária e do poder político em todo o processo.
A incompetência da investigação é assustadora. Primeiro, as contradições, as falhas, as omissões, os preconceitos sucedem-se sem qualquer brio profissional. O desprezo por todas as provas que vão surgindo, os erros processuais grotescos, numa investigação que apenas se quer justificar a ela própria, ditam, desde a primeira hora, o final desta triste história. Cada decisão de cada instância já só serve para esconder o erro anterior. A PJ e a Direcção-Geral da Aviação Civil entram numa luta de galos que tem a verdade dos factos como um mero pormenor que atrapalha. O Ministério Público recusa-se a investigar seja quem for e como for, recusa-se a ouvir peritos e suspeitos, porque decidira há muito pela tese do acidente. Os tribunais consideram que quem defende a tese do atentado é movido por interesses políticos, e a política é para ficar à porta do tribunal.
Quem investiga realmente? As comissões de inquérito parlamentar. Por mais estranho que pareça, tudo, mesmo tudo, o que se soube e se investigou foi obra do poder político. Apesar de, a cada momento, os tribunais se recusarem sempre a fornecer documentos e informação ao Parlamento. A arrogância aproxima-se, por vezes, da comédia. Um juiz chega mesmo a justificar a sua recusa com o argumento de que estas comissões seriam inconstitucionais. Outra juiza diz que só tem, levemente, em conta as informações das comissões parlamentares - todas elas bastante mais relevantes do que a "investigação" do MP - para justificar o dinheiro gasto pelos contribuintes. Só cedem perante a intervenção do Tribunal Constitucional.
Os tribunais entram na lógica de braço de ferro com os políticos. Nela, aceitar que, a 4 de Dezembro de 1980, acontecera um atentado seria perder a face.
25 anos depois, os principais suspeitos, José Esteves e Lee Rodrigues, estão em liberdade, nunca tendo sido realmente investigados. Porquê? Porque os tribunais não queriam ser pressionados e fizeram de um julgamento uma luta corporativa.
Não digo mais. Apenas aconselho a leitura do livro. Muito pedagógico nos tempos que correm. Sobretudo para os que vêem na justiça um agente neutral e sem mácula, que não tem interesses e que nunca deve ser questionado.
É de facto notável a profunda incompetência, a inqualificável mediocridade e a criminosa negligência de todos os intervenientes no processo de Camarate: a magistratura judicial, a Polícia Judiciária e, muito principalmente o Ministério Público.
Mas o que é mais surpreendente ainda do que as notáveis semelhanças com o "Caso Casa Pia" que agora vivemos, é a incompreensível impunidade de todos os agentes envolvidos e a complacência de todos os responsáveis ou o silêncio de quem poderia efectivamente mudar as coisas.
Nunca saberemos porquê? Já sabemos. Pelo menos sabemos que a investigação foi feita com os pés, disso não duvidem. Não era preciso camuflar coisa nenhuma.
Sabiam que, por exemplo, a polícia inglesa deteu o dito Lee Rodrigues em Londres, garantiu que ele estava ligado ao atentado, ofereceu-se para ajudar, e não houve nunca resposta portuguesa. Acabaram por solta-lo. Em Portugal, foi interrogado uma (uma!) vez e logo considerado não suspeito, apesar de ter sido encontrado na área de manutenção do Aeroporto de Lisboa, sem autorização, no dia do acidente. Lee Rodrigues era um crimoinoso procurado em todo o Mundo.
Esta é uma em milhares de histórias. Posso continuar. Camuflagem? Não era necessária. A polícia e o MP não queriam que fosse atentado. De todas as provas diziam ser circunstanciais, sem recusando-se a aceitar que centenas de provas circunstanciais deixam de ser circunstanciais.
Naquela mesma semana, entre 14 e 16 de Novembro de 1980, Portugal recebeu a visita de uma conhecida personalidade norte-americana: o antigo secretário de Estado de Richard Nixon, Henry Kissinger. Apesar de já não desempenhar qualquer papel público, Kissinger foi recebido ao mais alto nível.
Após aquelas notícias sobre a venda de armas de Portugal ao Irão, e poucos dias depois da visita de Kissinger ao nosso país, a 4 de Dezembro de 1980, aconteceu Camarate.
Alguns defendem que foi colocado uma bomba a bordo do avião onde viajavam o primeiro-ministro Sá Carneiro e o ministro da Defesa Amaro da Costa, outro defendem que foi um acidente. Toda a confusão entre as discussões de acidente ou atentado, no fundo, só serviu para não se falar na questão da venda de armas para o Irão no quadro do embargo que poderia ajudar Reagan e Bush a roubar as eleições a Jimmy Carter.
Com o passar dos anos houve tímidas aproximações que não passaram de aproximações, uma vez que ninguém quis escrever que qualquer investigação de Adelino Amaro da Costa em 1980 iria destapar um negócio proibido de vendas de armas para o Irão e como isso iria colocar em perigo a democracia norte-americana. Até que, a 24 de Julho de 2002, um dito antigo agente da CIA, Oswald Le Winter, foi testemunhar perante a VIII Comissão de Inquérito Parlamentar de Camarate e apontou o dedo directamente a Portugal nesse negócio e explicou que Kissinger não gostava de Sá Carneiro...
Ao fim de 25 anos, tudo afinal está na mesma!:noworry:
Acabei de ler, por razões de trabalho, o livro de Ricardo Sá Fernandes sobre a morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. À algum tempo que estava convencido da tese do atentado. Mas "O Crime de Camarate" é de um rigor exaustivo esmagador, quase cansativo. Não deixa nada por tratar. E o meu convencimento intuitivo transformou-se, assim, numa sólida convicção.
Mas a principal razão porque falo aqui do livro é outra: o papel dos tribunais, do Ministério Público, da Polícia Judiciária e do poder político em todo o processo.
A incompetência da investigação é assustadora. Primeiro, as contradições, as falhas, as omissões, os preconceitos sucedem-se sem qualquer brio profissional. O desprezo por todas as provas que vão surgindo, os erros processuais grotescos, numa investigação que apenas se quer justificar a ela própria, ditam, desde a primeira hora, o final desta triste história. Cada decisão de cada instância já só serve para esconder o erro anterior. A PJ e a Direcção-Geral da Aviação Civil entram numa luta de galos que tem a verdade dos factos como um mero pormenor que atrapalha. O Ministério Público recusa-se a investigar seja quem for e como for, recusa-se a ouvir peritos e suspeitos, porque decidira há muito pela tese do acidente. Os tribunais consideram que quem defende a tese do atentado é movido por interesses políticos, e a política é para ficar à porta do tribunal.
Quem investiga realmente? As comissões de inquérito parlamentar. Por mais estranho que pareça, tudo, mesmo tudo, o que se soube e se investigou foi obra do poder político. Apesar de, a cada momento, os tribunais se recusarem sempre a fornecer documentos e informação ao Parlamento. A arrogância aproxima-se, por vezes, da comédia. Um juiz chega mesmo a justificar a sua recusa com o argumento de que estas comissões seriam inconstitucionais. Outra juiza diz que só tem, levemente, em conta as informações das comissões parlamentares - todas elas bastante mais relevantes do que a "investigação" do MP - para justificar o dinheiro gasto pelos contribuintes. Só cedem perante a intervenção do Tribunal Constitucional.
Os tribunais entram na lógica de braço de ferro com os políticos. Nela, aceitar que, a 4 de Dezembro de 1980, acontecera um atentado seria perder a face.
25 anos depois, os principais suspeitos, José Esteves e Lee Rodrigues, estão em liberdade, nunca tendo sido realmente investigados. Porquê? Porque os tribunais não queriam ser pressionados e fizeram de um julgamento uma luta corporativa.
Não digo mais. Apenas aconselho a leitura do livro. Muito pedagógico nos tempos que correm. Sobretudo para os que vêem na justiça um agente neutral e sem mácula, que não tem interesses e que nunca deve ser questionado.
É de facto notável a profunda incompetência, a inqualificável mediocridade e a criminosa negligência de todos os intervenientes no processo de Camarate: a magistratura judicial, a Polícia Judiciária e, muito principalmente o Ministério Público.
Mas o que é mais surpreendente ainda do que as notáveis semelhanças com o "Caso Casa Pia" que agora vivemos, é a incompreensível impunidade de todos os agentes envolvidos e a complacência de todos os responsáveis ou o silêncio de quem poderia efectivamente mudar as coisas.
Nunca saberemos porquê? Já sabemos. Pelo menos sabemos que a investigação foi feita com os pés, disso não duvidem. Não era preciso camuflar coisa nenhuma.
Sabiam que, por exemplo, a polícia inglesa deteu o dito Lee Rodrigues em Londres, garantiu que ele estava ligado ao atentado, ofereceu-se para ajudar, e não houve nunca resposta portuguesa. Acabaram por solta-lo. Em Portugal, foi interrogado uma (uma!) vez e logo considerado não suspeito, apesar de ter sido encontrado na área de manutenção do Aeroporto de Lisboa, sem autorização, no dia do acidente. Lee Rodrigues era um crimoinoso procurado em todo o Mundo.
Esta é uma em milhares de histórias. Posso continuar. Camuflagem? Não era necessária. A polícia e o MP não queriam que fosse atentado. De todas as provas diziam ser circunstanciais, sem recusando-se a aceitar que centenas de provas circunstanciais deixam de ser circunstanciais.
Naquela mesma semana, entre 14 e 16 de Novembro de 1980, Portugal recebeu a visita de uma conhecida personalidade norte-americana: o antigo secretário de Estado de Richard Nixon, Henry Kissinger. Apesar de já não desempenhar qualquer papel público, Kissinger foi recebido ao mais alto nível.
Após aquelas notícias sobre a venda de armas de Portugal ao Irão, e poucos dias depois da visita de Kissinger ao nosso país, a 4 de Dezembro de 1980, aconteceu Camarate.
Alguns defendem que foi colocado uma bomba a bordo do avião onde viajavam o primeiro-ministro Sá Carneiro e o ministro da Defesa Amaro da Costa, outro defendem que foi um acidente. Toda a confusão entre as discussões de acidente ou atentado, no fundo, só serviu para não se falar na questão da venda de armas para o Irão no quadro do embargo que poderia ajudar Reagan e Bush a roubar as eleições a Jimmy Carter.
Com o passar dos anos houve tímidas aproximações que não passaram de aproximações, uma vez que ninguém quis escrever que qualquer investigação de Adelino Amaro da Costa em 1980 iria destapar um negócio proibido de vendas de armas para o Irão e como isso iria colocar em perigo a democracia norte-americana. Até que, a 24 de Julho de 2002, um dito antigo agente da CIA, Oswald Le Winter, foi testemunhar perante a VIII Comissão de Inquérito Parlamentar de Camarate e apontou o dedo directamente a Portugal nesse negócio e explicou que Kissinger não gostava de Sá Carneiro...
Ao fim de 25 anos, tudo afinal está na mesma!:noworry:

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