O que se passa com a Honda? <!--sizec--><!--/sizec-->
A pouco mais de duas semanas do início do Campeonato Mundial de Fórmula 1 de 2008, é por demais evidente que a Honda é, entre as escuderias apoiadas por construtores, aquela que está em maiores dificuldades. Os tempos efectuados por Jenson Button e Rubens Barrichello com o Honda RA108 nos testes efectuados até agora não deixam dúvidas a ninguém sobre o mau momento de forma da equipa de Brackley, numa situação que se arrasta desde o início do ano passado.
Mas como é que uma equipa que foi vice-campeã do Mundo em 2004 e ganhou o seu primeiro Grande Prémio dois anos mais tarde caiu tão rápida e profundamente na hierarquia do Mundial de F1? E até que ponto a situação está em vias de resolução com a entrada de Ross Brawn para o seu comando técnico, juntamente com a contratação de outros elemento de valor?
Foi para responder a estas duas questões que analisámos a situação da Honda, falando com alguns dos seus principais responsáveis, com os dois pilotos titulares e também com alguns observadores particularmente bem colocados para avaliarem o que se passa no seio duma equipa que tem potencial para andar nos lugares da frente, mas passou a última temporada na segunda metade do pelotão.
Coabitação complicada entre os líderes japoneses e a equipa inglesa
Boa parte dos problemas da Honda derivam do facto da equipa de Brackley ter uma espécie de dupla estrutura. O facto de se tratar dum construtor japonês não explica a difícil coabitação entre os homens da casa nipónica e a estrutura baseada em Inglaterra, pois a Renault, BMW e Mercedes também passam pela mesma situação com divisões geográficas entre as suas bases e os problemas não são os mesmos que a Honda enfrenta.
Enquanto a BAR-Honda foi dirigida no terreno por David Richards, com os japoneses residentes em Brackley a intervirem apenas na parte política e no relacionamento com a casa-mãe, as coisas correram de feição a esta escuderia, mas a partir do momento em que o patrão da Prodrive foi afastado, para dar lugar ao inexperiente Nick Fry, tudo mudou de figura. Fry não tinha, nem tem, a experiência e o prestígio de Richards, vendo-se forçado a aceitar uma presença cada vez mais importante de japoneses nos postos de liderança em Brackley, o que acabou por ter efeitos nefastos.
Enquanto os engenheiros nipónicos que ocuparam lugares de chefia foram competentes e experientes, as coisas até correram bem à Honda, mas quando factores políticos entraram em linha de conta, então a equipa de Brackley começou a regredir bastante. Graças ao seu excelente relacionamento pessoal com o patrão da Honda, foi possível a Shuei Nakamoto ascender ao lugar de Director Técnico da equipa de Fórmula 1, apesar da sua evidente falta de experiência para ocupar este lugar.
Como essa promoção foi praticamente feita à custa do afastamento de Geoff Willis, não é difícil perceber até que ponto a Honda perdeu em clarividência nos lugares de topo. É certo que a segunda metade de 2006 até foi bastante positiva, já com Willis de fora, mas os efeitos das mudanças efectuadas na equipa só se viram no projecto do RA107 e o mínimo que se pode dizer é que foram desastrosas. Foi precisa toda a capacidade de persuasão de Nick Fry um homem que ganha causas pelo cansaço, tamanha é a sua capacidade para repetir os mesmos argumentos vezes sem conta... para que a Honda aceitasse o que a Toyota rejeitou, e acabasse por contratar Ross Brawn para gerir toda a parte técnica da equipa japonesa.
Só com um nome indiscutível, como o do técnico que levou Michael Schumacher a conquistar sete Mundiais de Pilotos, seria suficientemente forte para colocar Nakamoto à margem dos processos de decisão técnicos, sem que isso colocasse em xeque a estrutura de Brackley.
Grande instabilidade de resultados
Olhando para os resultados da Honda nos últimos cinco anos, num ciclo iniciado ainda sob a gestão da BAR, fica-se com uma enorme sensação de instabilidade. Em 2004 a equipa então gerida por David Richards foi claramente a segunda melhor do Mundial, mas como a Ferrari ganhou quase tudo com Schumacher e Barrichello, nem Button nem Sato conseguiram vencer um Grande Prémio, resultado que ambos mereceram nessa temporada.
Mas o ano seguinte começou praticamente com a desclassificação dos dois carros do GP de San Marino e a suspensão da equipa por duas corridas por utilização dum depósito de combustível secreto, que servia para esconder que os BAR-Honda andavam abaixo do peso mínimo durante grande parte das corridas. Segundo fontes muito bem informadas, outras equipas de ponta utilizavam o mesmo estratagema, mas a FIA escolheu selectivamente desclassificar a Honda, que na altura era quem colocava mais entraves a um entendimento entre a GPMA e a Federação quanto ao futuro da Fórmula 1.
Verdade ou não e o que é certo é que outras cinco equipas apareceram com depósitos de gasolina novos na corrida seguinte (!!!) o que é certo é que 2005 foi mesmo um ano para esquecer para a equipa de Brackley, que nunca recuperou verdadeiramente dos acontecimentos de Imola. Para alem disso só Button andou ao seu nível anterior, pois Takuma Sato, com graves problemas familiares, afundou-se completamente, sendo uma sombra do piloto rápido e combativo que tínhamos visto nos dois anos anteriores.
A saída de Geoff Willis
Já 2006 começou e terminou bastante bem para a Honda, pois Jenson Button foi uma presença constante nos lugares pontuáveis. Sem uma inexplicável quebra de forma a meio da temporada, que culminou no afastamento de Geoff Willis da equipa e a uma modificação da estrutura interna, o inglês teria sido candidato ao terceiro lugar no Mundial, mas ao menos conseguiu a sua primeira vitória em Grandes Prémios, quando recuperou do 14º na grelha de partida por ter perdido dez posições devido a uma troca de motor até à liderança, numa corrida marcada pela chuva e por alguns abandonos importantes. Button foi mesmo o piloto que mais pontos marcou nas últimas seis corridas do ano, e juntamente com Barrichello deu o quarto lugar no Mundial de Construtores à Honda.
No ano passado é que as coisas correram mesmo mal, como se sabe. O projecto do RA107 não tinha mesmo ponta por onde se lhe pegasse, a frente do carro recusava-se a entrar nas curvas, a instabilidade na travagem era enorme e faltava muita carga aerodinâmica ao chassis japonês. Barrichello, pela primeira vez em 15 anos de Fórmula 1, terminou a temporada sem marcar pontos e Button nem dez pontos conseguiu conquistar, com a equipa a cair para a oitava posição no Mundial de Construtores, mesmo beneficiando da desclassificação da McLaren!
Sabendo-se desde já que a temporada de 2008 não vai ser brilhante, pois a Honda caiu muito fundo e não vai poder recuperar todo o potencial perdido em apenas um ano, não custa acreditar que a equipa de Brackley vai progredir ao longo da temporada para terminar o Mundial muito melhor do que o começou, pois com Ross Brawn no comando das operações as coisas só podem melhorar.
Mas o grande desafio do inglês vai ser mesmo a temporada de 2009, quando terá de mostrar serviço e fazer com que a Honda progrida em duas temporadas consecutivas, para inverter a tendência de sobe e desce dos últimos cinco anos.
Luís Vasconcelos,
Fonte:
http://autosport.clix.pt/gen.pl?p=stories&...s.stories/43828