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F1 feito em casa
#1
F 1 feito em casa

Em 1972, o inglês Peter Connew realizou o sonho de construir seu Fórmula 1. De quebra, juntou os amigos e foi disputar o Campeonato Mundial

www.f1portugal.com

[Image: f1feitoemcasaa.jpg]

Hoje em dia, com o volume de dinheiro envolvido, é impossível imaginar um cidadão comum largar o emprego para construir o próprio carro de F 1 e sair pelo mundo enfrentando as grandes equipes. Mas isso já aconteceu: em 1972, o inglês Peter Connew e um punhado de colaboradores partiram de uma oficina improvisada em um pequeno depósito para disputar provas do Campeonato Mundial. Naquele ano, o monoposto feito pela nova equipe largou no GP da Áustria e completou 22 voltas antes de abandonar com um problema de suspensão.

Chamado de PC1, o protótipo participou de outras cinco provas antes de sair completamente de cena. Connew tinha 26 anos e havia investido até o último centavo no projeto. Ainda hoje ele mantém o carro, desmontado, na garagem de casa. "Tenho grandes momentos, coisas para guardar a vida toda na memória e apreciar", diz ele. "Houve muitas frustrações, é claro, mas não me arrependo de nada. A aventura compensou tudo."

O GP da Áustria, disputado no velho circuito de Österreichring, foi o ponto alto do sonho desse construtor improvisado. Seu interesse pela F 1 surgiu apenas três anos antes da estréia, em 1969. Foi após abandonar o emprego, entre outras coisas, porque não haveria mais feriados pela frente naquele ano. Connew decidiu assistir ao GP da Itália e, quando voltou, conseguiu um novo trabalho, na extinta equipe inglesa Surtees, como desenhista dos carros de F 1 e F 5000. Mas o romance durou pouco: no fim daquele ano, Connew deixou o time para, audácia das audácias, construir o próprio carro e colocá-lo no grid ao lado de máquinas legendárias.

O modelo PC1 foi exibido em um salão de carros de competição no começo de 1972 e atraiu a atenção do piloto francês François Migault, que tinha patrocínio da Shell. Rapidamente, Connew viu-se com dinheiro para realizar seu sonho. "Nossa equipe funcionava numa pequena oficina. Havia três figuras-chave: o mecânico-chefe Roger Doran, seu pai, Ron Doran, especialista em solda, e meu primo, Barry Boor, um sujeito pau-para-toda-obra, professor de carpintaria. Pode parecer engraçado, mas Barry foi muito útil, porque fez os moldes da carenagem. Trabalhávamos de graça até a chegada de François, quando houve dinheiro suficiente para os outros saírem de seus empregos."

A idéia era estrear o carro no GP da França, na temida pista de Clermont-Ferrand. No caminho para a prova seria feito o único treino do PC1, no circuito Bugatti de Le Mans. "Barry casou-se no sábado da semana anterior à da prova", conta Connew, "e todos nós tiramos o dia de folga para ir ao casamento, inclusive François."

No domingo, lembra o projetista, todos foram para Le Mans. "No caminho, nosso caminhão quebrou. O conserto demorou e ficou claro que não íamos chegar a tempo para a corrida. No fim, valeu a pena. Fizemos mais testes em Le Mans e aproveitamos para curtir. A família de François era rica e ficamos hospedados num castelo deles. Todos nós dormimos em quartos grandes com aquelas camas com dossel, como as que a gente vê nos filmes sobre a nobreza antiga. Deu para entender por que François não precisava arrumar um emprego como todo o mundo."

Sempre com Migault ao volante, as tentativas de disputar os GPs da Inglaterra e da Alemanha também foram frustradas, antes de o carro finalmente conseguir largar na Áustria. Duas provas extra-campeonato, disputadas no circuito inglês de Brands Hatch, também foram mal-sucedidas. Depois disso, o projeto teve de ser abortado.

"Em Brands, percebi que nosso sonho estava acabando", diz Connew. "Aqueles foram os dias mais emocionantes da minha vida. Na Áustria, onde estreamos, não me senti exatamente orgulhoso porque havia muito trabalho e sobrava pouco tempo para pensar no que estava acontecendo. Além disso, durante os treinos nosso carro derramou óleo na pista. Assim, não éramos exatamente os caras mais populares dos boxes..."

"Depois de Brands Hatch, estávamos quebrados e sem esperança de que aparecesse alguém para nos ajudar. Mergulhei na maior depressão da minha vida, mas também senti alívio porque estava encerrado um período no qual trabalhávamos 20 horas por dia, todos os dias da semana, e o pensamento de poder dormir uma noite completa era irresistível."

O PC1 não era um carro ruim, diferentemente de outros monopostos com melhor patrocínio na época. O grande problema foi a falta de recursos humanos e financeiros. No entanto, o projetista admite que teria sido melhor construir um carro mais convencional. O monoposto utilizava um conceito de suspensão traseira baseado no Surtees, que consumiu muito dos já poucos testes que a equipe fez. "Esse tipo de coisa não era um problema sério na Surtees, um time de nome, mas na nossa equipe não havia recursos para desperdiçar. Porém, a F 1 não é diferente de nenhuma outra atividade humana: é preciso viver, tentar, para aprender", ensina Connew.

O projetista e seus amigos procuraram largar em cinco provas, mas só atingiram a meta uma vez. Diante disso, será que o sonho de competir na F 1 foi realizado? "Claro", garante Connew. "É comum as pessoas dizerem: 'Você quase fez uma corrida', referindo-se ao fato de termos dado apenas 22 voltas na Áustria. Às vezes, dizem isso de uma forma que soa praticamente como crítica. Talvez elas não tenham a intenção de ser maldosas, mas me incomoda quando falam assim. O importante é que, apesar de não termos sido competitivos, nós, um punhado de pessoas comuns, construímos uma equipe e um carro de F 1 e fomos correr. Há livros sobre a categoria em que nosso monoposto aparece ao lado da Ferrari, Tyrrell e outros grandes esquemas. Algumas pessoas podem não entender mas, ao contrário do que elas pensam, nós realizamos, sim, o nosso sonho."

No total, a aventura desse projetista caseiro contou com a ajuda de um piloto, três amigos, uma namorada (Iris, que se tornou a sra. Connew) e dois sujeitos que davam uma força de graça. "Esses dois tinham uns 15 anos de idade", diz Connew. "Apareceram lá na oficina e nós os deixamos polir o carro. Ficaram até fecharmos as portas." Certamente, esse não é o processo de seleção de pessoal na McLaren, Williams ou Ferrari.
[Image: f1feitoemcasab.jpg]

Enquanto esteve ativo, o monoposto de Connew passou mais tempo nos boxes do que na pista

Falido, mas feliz
Quanto custou construir o PC1? "Hoje é difícil calcular. Sem corrigir o dinheiro, gastamos algo entre R$ 30 mil e R$ 60 mil. Compramos um motor de segunda mão. Vimos um anúncio de um Cosworth DFV 902, usado pela McLaren em 1969. Um dos diretores da equipe, Phil Kerr, nos deixou levá-lo, apesar de eu ter apenas uns R$ 3 mil em dinheiro. Acho que ninguém mais faria isso –- o preço atualizado daria para comprar uma casa na Inglaterra!"

Ajudado pelo patrocínio de François Migault – cerca de R$ 19 mil –, Connew pagava a seus três funcionários R$ 90 por semana. "Eu não recebia nada", diz ele. Depois da última tentativa de classificação na prova extra-campeonato de Brands Hatch, o time se viu em dificuldades. "Chegamos ao ponto de não ter dinheiro para pagar um pedágio em Londres. Então, precisamos fazer um cheque. Estávamos quebrados. Havíamos empenhado cada centavo na equipe."

"Ainda devíamos uns R$ 8 mil. Era a única conta grande que tínhamos, mas havia outras que não tinham sido pagas. Então, o objetivo passou a ser vender o motor para fazer caixa. O nosso Cosworth valia bastante porque tinha sido usado em algum carro histórico da McLaren. E foi só por isso que conseguimos dinheiro suficiente para pagar todo o mundo."

Todas as fotos fornecidas por Peter Connew
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#2
O verdadeiro sonhador que pos em pratica até ao fim! possa... nem sei o que dizer é mesmo arriscar tudo pelo menos valeu a pena :D
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#3
:fixe: :notworthy:
Lynx.Racing.Team | Altough an endangered species the Iberian Lynx keeps racing!! Visit: SOSLynx.org
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